O bonde chamado liberdade
"Esta é a terceira vez que venho aqui pedir o bendito carimbo em meu passaporte! Tudo dará certo agora! " Vitória murmurou quando subia os degraus de mármore já gastos pelo tempo.
Era uma manhã ensolarada na cidade de Milão, no início dos anos cinquenta. Neste local a representação diplomática do Brasil, país onde estava seu marido, realizava exames de saúde para imigrantes. Com o laudo de "apto" recebia o visto e, mais importante, o auxílio financeiro para despesas da viagem marítima.
Entre os documentos exigidos, a radiografia pulmonar. Época em que a tuberculose era uma infecção com alta taxa de mortalidade. Sem um laudo de "pulmões limpos", o subsídio seria negado pelo país de destino.
O primeiro exame realizado há mais de um ano, sem aprovação do visto. Passados seis meses novos exames, retornando para casa sem o esperado visto.
"Volte daqui a seis meses... descanse e alimente-se! " disse o médico quando abriu a porta do consultório, com os lábios num sorriso ligeiramente sarcástico.
Naquela manhã, sentada novamente na sala de espera, o maior desejo de Vitória que a sufocava
"Preciso reencontrar meu marido. Faz quatro anos que ele partiu e me quer muito ao seu lado."
A enfermeira chamou-a e, levantando-se, olhou firmemente para a porta do consultório, encontrando os olhos do médico que a esperava:
"Senhora Vitória, bom dia! Prazer em revê-la! "exclamou o médico. " A senhora trouxe a radiografia solicitada?"
Ao entregar a imagem interna de seu corpo, pensando "Será que ele consegue enxergar a minha alma? O meu sofrimento em querer estar junto ao meu marido? Que sem este bilhete grátis eu não tenho como comprar uma passagem e seguir ao rumo de minha felicidade?"
O médico caminhou para ampla janela iluminada pelo Sol, levantou a película de acetato de celulose com a imagem dos pulmões.
Uma longa pausa, silêncio absoluto no consultório, interrompido somente pelo ruído das rodas de aço nos trilhos do bonde que passava em frente ao prédio.
Os batimentos do coração de Vitória em total descompasso, um calor subindo em sua face, um amortecimento em suas pernas. Estava prestes a desfalecer na infinita espera pela manifestação do médico. Não poderia dar sinais de fraqueza. Seria o atestado final que não tinha saúde para imigrar.
"Senhora Vitória, por favor, venha aqui na janela" disse o médico sem tirar a visão da radiografia.
Buscando últimas forças, a jovem mulher caminha até a janela. Mantinha ao máximo um comportamento saudável e, ao lado de seu iminente carrasco, escutou:
" Vejo que a senhora está bem melhor, não tenho dúvida. Alimentação e descanso fizeram muito bem à sua reabilitação. Mas ...esta cicatriz pulmonar de sua infecção antiga, não me deixa tranquilo quanto a uma eventual recidiva" disse o médico ,quase sussurrando.
Vitória sabia que não teria uma quarta oportunidade. Aproximou-se mais da janela, e virando-se para o médico disse:
"Doutor, o senhor está vendo lá embaixo os bondes que fazem uma curva logo na esquina?"
"Sim, mas por quê? "disse o médico olhando o local apontado.
"Pois fique aqui, caso o senhor não me libere para viajar! Se tenho um diagnóstico que vou morrer, não sei quando, que seja agora. Se o senhor não colocar o carimbo nos meus papéis, não saia desta janela e olhe aquela curva! E aguarde eu me atirar sob as rodas do primeiro bonde que passar! " disse entre lágrimas a jovem Vitória.
Passados três meses, estava no deck do navio que cruzava o oceano Atlântico.Ao Sol que aquecia seu corpo, junto com outros imigrantes que buscavam um novo tempo, reencontros, aventuras ou simplesmente liberdade .Vitória lembrava dos mesmos raios de Sol daquela janela em Milão.
Aquela força indescritível que brotou no consultório em Milão, foi reconhecida pelo médico.
Viu uma mulher que, como numa escuridão tomando sua vida, soube acender uma centelha e dela ,a busca da liberdade.
O médico ao abrir a porta do consultório, despedindo-se da jovem Vitória, disse:
""Caso tenha que morrer, que seja ao lado de quem se ama... boa viagem!"
Domenico Cesare
23.6.25
Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.