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UM PEDIDO EM TROCA DE FUTURO SERVIÇO

UM PEDIDO EM TROCA DE FUTURO SERVIÇO

Ainda não eram dez horas da manhã e Sol escaldante do verão carioca tornava a subida no morro ainda mais desafiadora.  Ainda pior para o Agostinho, já com seus cinquenta anos e aquelas infinitas escadas e ruelas morro acima no Complexo do Alemão, cidade do Rio de Janeiro.

Mas nada o impediria   para que chegasse no quartel general do Chefe Doca,  lá no alto do morro.

— Chefe Doca, te conheci como Dorival — sussurrou Agostinho em seus pensamentos enquanto avançava, degrau a degrau, rumo ao encontro agendado dias antes com os soldados do Chefe Doca.

Agostinho e Dorival nasceram, cresceram e se estabeleceram no Morro do Alemão. Suas mães se conheciam. Brincavam juntos quando meninos compartilhando sonhos e alegrias da vida pobre de uma comunidade carioca.

Agostinho, filho de marceneiro, tão logo aprendeu o ofício familiar era chamado para providenciar um caixão para enterrar algum conhecido ou parente. Com seus vinte anos e visão de negócio com demanda crescente, instalou uma pequena funerária que, com o tempo, tornou-se uma referência para a Zona Norte do Rio de Janeiro.

Dorival foi para a "vida loca" desde cedo, galgando na hierarquia dos comandos e milícias todos os postos em tantas chacinas quantas foram necessárias. Seu respeito foi conquistado na coerção e na brutalidade. Mas também na resolução de impasses e injustiças que o poder público abandona ao comando paralelo para encaminhamento in loco.

Algumas vezes, nas festas no centro de recreação, trocavam cumprimentos.

Agostinho mantinha uma distância "regulamentar" de Dorival. Além do pagamento de diversas taxas do domínio territorial do Chefe Doca, não queria nenhum envolvimento com aquela amizade do passado.

— O Dorival vai fazer justiça! Ele tem poder! — sussurrava Agostinho enquanto esperava no último posto de bloqueio antes da casa do Chefe Doca. Na sua frente um adolescente segurava uma metralhadora enquanto seu parceiro voltava de dentro da casa:

— Seu Agostinho, pode entrar. O Doca está esperando o Senhor.

Quando estava passando pela porta, o jovem com metralhadora voltou-se para Agostinho e num tom respeitoso disse:

- Seu Agostinho, ficamos sabendo da sua filha Nina e o que fizeram com ela. Espero que ela esteja bem. Fomos colegas na escola e a Nina é super boa gente.

Tinham se passados dez dias quando Nina e algumas amigas estavam numa praça da comunidade, lá no pé do morro, perto da casa de seus pais. Do ronco de diversas motos até a chegada na frente das jovens de quatro motos com oito homens foi um instante. E menos ainda para começar a ser espancada brutalmente para o horror de quem estava vendo e nada poder fazer. De repente, o líder do grupo manda suspender a agressão e olhando com atenção o rosto já desfigurado de Nina, gritar aos comparsas:

— Deu ruim! Essa garota não é a Joyce namorada do filho do Doca! Erramos de garota! Vamos embora daqui agora!

Chamado Agostinho que horrorizado em ver o estado de sua filha, empenhou todos os esforços e melhores clínicas para os primeiros atendimentos na esperança que nada de grave teria ocorrido. Mas lesões graves num olho levaram a perda da visão e a necessidade de uma reabilitação longa com intervenções futuras de reconstituição do queixo entre outras sequelas.

Agostinho não demorou muito para saber quem eram os autores da brutalidade. Sabia os nomes, onde moravam. Eram de outra comunidade.

Como cidadão foi a delegacia fazer a ocorrência detalhando todo o espancamento e que sabia quem eram os autores. Escutou a clássica pergunta de um delegado que já tinha emitido milhares de boletins como aquele:

— Seu Agostinho, o senhor tem alguma prova que foram eles? Um vídeo, uma testemunha, uma foto?

Com a promessa que iriam abrir uma investigação Agostinho saiu da delegacia com um único pensamento: precisava punir os agressores. E da maneira mais rápida, com a mesma violência que sua filha Nina sofreu no espancamento.

 Recebido pelo Chefe Doca numa sala   escura com duas poltronas, sem janelas, ar-condicionado funcionando que tornava o ambiente tranquilo e acolhedor. Um oásis no calor infernal do morro.

Na medida que Agostinho adaptava a sua visão ao ambiente, escutou a música de fundo: era música clássica! Nada de funk!

 Chefe Doca ao ver a surpresa de seu amigo de infância, olhando para o teto, como numa inspiração:

- Agostinho, é o Noturno de Debussy. Estou numa fase "debussiana" e esta é uma das minhas preferidas.

Como que incrédulo e envergonhado por não saber quem era Debussy, mais surpreso na medida que se adaptava à escuridão foi ver uma prateleira com centenas de livros: uma biblioteca!

Novamente seu anfitrião, ao identificar o olhar do visitante em sua na biblioteca, falou  num tom calmo, pausado e algo professoral:

— Meu caro, a arte de comandar está escrita nos livros. O equilíbrio das emoções e sentimentos, da inspiração ... Como dizem, ao ler um livro sonhamos com os olhos abertos, saindo desta realidade dura e crua. Algumas vezes, ao folhear um livro encontro minha impressão digital em vermelho. Fico tentando lembrar qual a razão desta marca indelével? Quando foi? Mas logo volto para a leitura.

Agostinho tinha em sua frente o chefe da milícia de sua comunidade que combinava brutalidade e refinamento.

Dois soldados com metralhadoras atrás da poltrona do Chefe Doca. Este, num gesto, pediu para Agostinho relatar o motivo da reunião.

Agostinho discorreu em minutos tudo que aconteceu com Nina, muitas vezes emocionado ou alterando a voz. Num olhar do Chefe Doca aos seus soldados, recebia um copo de água para acalmar os pensamentos e concluir seu relato.

 Após um silêncio que parecia eterno, o Chefe Doca suspirou e, olhando fixamente os olhos de Agostinho

— Agostinho, conhecemo-nos há anos, mas esta é a primeira vez que me vens pedir ajuda. Já não me lembro da última vez que me convidaste para tomar um café em tua casa? mesmo sendo as nossas mães amigas.

—O que quer de mim? Dou-lhe tudo o que quiser, mas faça o que lhe peço – suplicou Agostinho

— E o que é isso, Agostinho?

Agostinho levanta-se sob os olhos dos soldados e sussurra ao ouvido do Chefe Doca.

— Não. Isto é pedir demais.

— Estou a pedir Justiça.

 — Você a terá pela investigação da polícia, respondeu Chefe Doca

— Olho por olho!

— Mas a tua filha ainda está viva.

— Então faça-os sofrer como ela sofre. Quanto tenho de lhe pagar— disse Agostinho sentando-se na ponta da poltrona como esperando o valor pelo serviço.

Os soldados se olham, surpresos.

—Nunca pensaste em proteger-te com amigos verdadeiros. Pensas que basta ser da comunidade, pagar teus impostos, ser um bom cidadão. Muito bem, a Polícia protege-te, há Tribunais, por isso não precisas de um amigo como eu. Mas agora vens até mim e dizes "Chefa Doca, tem de me fazer justiça". E não pedes com respeito, ou amizade. E nem te lembras de me chamar Chefe; em vez disso, vens a minha casa e pedes-me um assassinato? por dinheiro.

— Eu acredito na justiça – sussurrou Agostinho

— Então aceita a investigação da polícia e se avançar, a decisão do juiz, o amargo com o doce. Mas se vens até mim com a tua amizade, com a tua lealdade, então os teus inimigos tornam-se os meus inimigos, e então, acredita-me, eles vão temer-te?

Lentamente, Agostinho baixa a cabeça e murmura.

— Seja meu amigo.

—Muito bem. De mim terás justiça.

—Chefe Doca, por favor — complementa Agostinho, aproximando-se do Chefe Doca , baixando o rosto até beijar a sua mão.

A liderança da milícia da comunidade, olhando para Agostinho, disse concluindo:

— Um dia, e talvez esse dia nunca chegue, eu gostaria de contar contigo para me fazeres um serviço em retribuição.

 

DOMENICO CESARE

Nota do autor : adaptação de cena do Poderoso Chefão

FEVEREIRO/2026

Cesare Arturo Domenico Bianchini

Domenico Cesare é engenheiro, gaúcho de Porto Alegre, 67 anos. Após uma vida profissional pautada no relacionamento e gestão de grandes equipes, decidiu investir suas experienciais pessoais e familiares contando histórias. Em especial, escrever  a sobrevivencia de sua familia italiana nos anos conturbados que antecederam a segunda guerra mundial até seu desfecho. Participando do Curso de Formação de Escritores estreia com seu conto - Os orixás disseram não - na Coletânea Toda Forma de Amor 2025.