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A Evolução da Linguagem: em frente, para enfrentar

A Evolução da Linguagem: em frente, para enfrentar

A Evolução da Linguagem: em frente, para enfrentar

                       

Maria Luíza gostava de aprontar as suas brincadeiras. Assim, numa aula de português, em que a professora pediu aos alunos que discorressem sobre o título: "Vamos, em frente, para vencer", ela discorreu com enorme habilidade sobre o título: "Vamos, enfrente, para vencer!".

A professora corrigiu o texto reconhecendo a criatividade da aluna, mas não pôde deixar de comentar:

_ Maria Luíza, seu texto ficou excelente, porém no título proposto, aparecia a locução prepositiva em frente, e não enfrente do verbo enfrentar.

            _ Quero ver, professora, alguém seguir em frente e vencer sem enfrentar.

            Dona Helena, a professora, só pôde achar graça e reconhecer que sua aluna tinha realmente razão.

            Maria Luíza veio a ser professora de português, e por estas coincidências que nossa vã filosofia não consegue explicar, eu, Clarice, filha de Dona Helena, vim a ser sua aluna.

            Não havia esquecido a brincadeira que há anos ela fizera com minha mãe e esperava o momento de retribuir-lhe o fato.

            A oportunidade surgiu numa prova em que numa das questões pedia-se exemplos de advérbios. Foi assim que respondi:

            _ Advérbios de afirmação: sim, não; advérbios de negação: sim, não. Depende do contexto.

            A professora não compreendeu minha resposta e assim expliquei-lhe:

            _ Professora, as palavras mudam sua função gramatical de acordo com o contexto e entonação. Exemplo: Paula não gosta de festa junina. Quando indagada se iria ou não à festa junina da escola respondia: Pois sim!!! Nessa resposta, apesar de empregado o advérbio de afirmação, pela entonação e pelo contexto caracteriza-se exemplo claro de negação. Outro caso é do não, que, embora seja advérbio de negação pode conotar um consentimento, uma afirmação. Posso entrar? Pois não!

            A professora ficou maravilhada com a minha resposta.

            Herdei de minha mãe o amor pelo magistério, com o mesmo entusiasmo, sempre participando de cursos, palestras, seminários, procurando aperfeiçoar-me cada vez mais.

            Hoje, corrigindo uma prova, deparei-me com uma questão em que pedi que fosse retirado do texto exemplos de advérbios de afirmação, ao que a aluna respondeu: "Pior". Considerei a resposta correta, pois texto havia um diálogo em que um dos personagens dizia: "Aquela menina é a mais bonita do colégio", ao que o outro respondia: "Pior".

            O adjetivo pior funciona, atualmente na linguagem dos jovens, como advérbio de afirmação. É preciso, pois, que o professor esteja atento às mudanças, à evolução da linguagem.

            Na reunião de pais, a mãe de uma aluna veio elogiar-me pelas provas elaboradas. Logo a reconheci, era a professora Maria Luíza. Ela também me reconheceu e disse:

            _ Nunca me esqueci de sua coragem de enfrentar-me com a resposta a uma prova fundamentada de maneira tão brilhante. Não me admira você ter abraçado o magistério e não ficar parada no tempo, mas evoluir, avançar.

            É que minha mãe sempre disse: "Vamos em frente para vencer". Ir em frente no sentido de aprimorar-se cada vez mais. E conta ainda que ela aprendeu com uma aluna que ´para seguir em frente é preciso enfrentar.

            Maria Luíza sorriu e com os olhos cheios de lágrimas disse-me:

            _ Mande um beijo para sua mãe e diga a ela que vou fazer um curso de especialização. Eu havia parado no tempo, mas você é o exemplo vivo de que, seguindo em frente, podemos enfrentar e vencer.

Doraney Carmo de Oliveira

Doraney Carmo de Oliveira,  63 anos, professora de Língua Portuguesa aposentada. Exerceu a profissão de professora por 42 anos, tendo atuado no ensino fundamental, médio e superior. Graduada em Letras Vernáculas e Direito pela PUC-GO, com pós-graduação em Língua Portuguesa e também em Literatura pela UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira).