Doce reclamação
É tempo de caju na chácara. Os cajueiros estão carregados. Minha prima decide fazer doce e começa a saga.
Doce em calda. Doce cristalizado. Doce em compota. Doce de todas as formas possíveis.
Cada doce finalizado, uma promessa:
_ Agora é o último. Juro!
Mal a panela esfria, lá vem ela com mais cajus.
_ O que você vai fazer, Kátia?
_ Só mais este, rapidinho!
O doce borbulha, espirra, queima o braço. Ele resmunga, promete nunca mais. Quase xinga. Mas o aroma doce vence. E ela vai de novo, e de nova, e de novo, e mais uma vez. Nenhum último dura mais do que cinco minutos,
No fim do dia, a mesa explode de potes. Calda brilhando, doces cristalizados, compotas alinhadas. Ela cansa e se joga na cadeira, celular na mão. Fotografa tudo. Posta nas redes. Cada passo da batalha registrado.
Reclamou, xingou baixinho, prometeu desistir. Mas sorri. Realizada. A cozinha virou território conquistado. O caju venceu, ela venceu. O "último doce" nunca foi tão improvável e tão delicioso. Mesmo com o sucesso alcançado ela resmunga.
_ Não volto mais aqui em tempo de caju.
Olho para ela e respondo sorrindo:
_ Não tem problema, mês que vem começa o tempo das goiabas, Seu doce de goiaba é imbatível.
Doraney Carmo de Oliveira, 63 anos, professora de Língua Portuguesa aposentada. Exerceu a profissão de professora por 42 anos, tendo atuado no ensino fundamental, médio e superior. Graduada em Letras Vernáculas e Direito pela PUC-GO, com pós-graduação em Língua Portuguesa e também em Literatura pela UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira).