EXEMPLO DE VIDA
Volto ao passado e vejo meu pai com vinte e nove anos, muito bonito,
inteligente, charmoso, alto e elegante. Um homem alegre, extrovertido e
brincalhão. Era músico, tocava saxofone. Um dia ensinou-me a cantar uma
música, ensaiou-me e me levou num programa infantil da televisão Anhanguera
para uma apresentação.
Minha mãe jovem, trinta e um anos, linda, pele branca, olhos castanhos
escuros, cabelos negros. Ela se veste com simplicidade, não usa maquiagem
nem acessórios como brincos, pulseiras; mas é uma mulher vaidosa, cuida da
pele, dos cabelos. É uma mulher bonita. Vejo-a costurando, varando a noite
para entregar o vestido da freguesa, pois essa era a garantia do sustento da
família.
Eu estava com sete anos, e meu irmão com seis. E mesmo ainda muito pequenos
já sentíamos um imenso orgulho dos nossos pais, em razão do carinho e
atenção que recebíamos.
Enquanto minha mãe costurava, meu pai estava estudando. Entregara-se aos
livros buscando passar em um concurso público da polícia federal. Minha mãe
assumira a responsabilidade da casa, disposta a ajudar o marido a ter um
trabalho melhor, e ele sempre muito carinhoso lhe dizia: "Vou recompensá-la
por tudo. Terei um excelente salário e você não mais precisará se matar de
trabalhar".
As coisas seguiam com dificuldade, mas mesmo com o dinheiro regrado minha
mãe não deixava faltar cigarro para meu pai. Afinal ele estava se esforçando, buscando uma vida melhor para a família. Meu pai era um homem que vivia para a família, amava a esposa e os filhos, dedicava atenção total a minha avó e cuidava do meu tio, seu único irmão, como se fosse um filho.
Minha mãe conta que muitas vezes ela estava cozinhando, quando ele chegava e
desligava o fogão para tirar-lhe a atenção da comida e fazer-lhe um carinho.
Às vezes, à noite, de madrugada, ele acordava preocupado com minha avó, que
morava só com o meu tio, e ia até a casa dela ver se estava tudo bem.
Tinha muita paciência comigo. Eu tinha os cabelos compridos e os fios muito
finos se embaraçavam com facilidade. Ele me colocava no colo e penteava meus
cabelos devagar, com carinho, desembaraçando-os com toda delicadeza.
Gostava da vida, gostava de se divertir, de viver cada dia como se fosse o
último. Mesmo com dificuldade financeira, sempre que possível levava minha mãe para passear; iam a cinemas, boates, viajavam, se divertiam. E era por esse grande homem, esse excelente pai de família, que minha mãe se esforçava assumindo as despesas da casa para que ele pudesse estudar.
Ele correspondia, pois se dedicava com afinco aos estudos, pois sabia que
precisava passar, seria a oportunidade de mudar de vida. Fez o concurso, aguardou o resultado com ansiedade. Era muito importante que fosse aprovado. Os dias corriam lentos, o tempo não passava. A expectativa de uma resposta fazia com que as horas retardassem. Enfim, chegou o dia do resultado. Mal dormira a noite, estava muito ansioso.
Levantou cedo para comprar o jornal e conferir o resultado. Ele não podia
acreditar, o nome dele estava lá: PAULO VICENTE DE OLIVEIRA. Queria gritar,
sair e contar para todo mundo, extravasar sua alegria e compartilhá-la com
os amigos. Porém, antes de qualquer comemoração, precisava comprar gás. É isso mesmo, o gás de cozinha havia acabado. Então ele foi à casa do meu tio, que morava
perto, para que os dois pudessem buscar o gás para minha mãe, pois meu tio
tinha uma vespa. E assim foi. Ele e meu tio estavam indo comprar o gás. Mas meu pai quis antes passar na casa de um grande amigo dele, senhor Otávio, para dar-lhe as
boas novas. Meu tio relutou, alegando a urgência da compra do gás. Entretanto, como meu pai insistiu, meu tio acabou concordando para não contrariá-lo. Foi então que entraram na Rua Santa Luzia, esquina com a Ceará, em Campinas, para irem à casa do Senhor Otávio. E nesse momento veio uma caminhoneta em alta velocidade na contramão e colidiu com a vespa. Meu pai bateu a cabeça no meio fio, teve traumatismo
craniano, morte instantânea. Meu tio ao ver o irmão morto entrou em estado
de choque e perdeu a voz por algumas horas.
Meu pai se foi...Ele se foi com vinte e nove anos e levou com ele o sonho de dar uma vida melhor para sua família. Ali, naquele acidente, calou-se para sempre em mim a palavra pai. Enterraram meu pai, enterraram sonhos e esperanças... Enterraram a alegria de duas crianças que tinham um pai jovem, feliz, inteligente e que amava imensamente a vida. Felizmente minha mãe sempre procurou preencher esse vazio. Ela é uma MÃEZONA. E teve garra para criar seus dois filhos com amor e dignidade,
ensinando-nos os verdadeiros valores da ética e da moral. Por isso, em qualquer lugar, em qualquer dimensão em que meu pai esteja, tenho certeza de que ele tem orgulho da família que deixou aqui, da esposa, dos filhos e dos netos que vieram.
Ele se foi jovem, mas deixou amor, carinho e exemplo de vida. E deixou uma saudade que não se acaba, mas com a qual nós aprendemos a conviver, pois ele permanece vivo em nossos corações.
Pai
Eu queria, Pai,
poder te abraçar,
poder gritar seu nome todos os dias,
poder dizer Papai.
Eu queria ir te encontrar
na volta do emprego.
Eu queria te abraçar bem forte,
bem forte,
de modo que a morte jamais passaria entre a gente.
Eu queria, Pai, poder pegar na sua mão
e sairmos a esmo pra bem longe,
onde a morte jamais nos afastaria um do outro.
Eu queria, Pai, muito mais.
Eu queria, Pai, poder te devolver à vida.
Doraney Carmo de Oliveira, 63 anos, professora de Língua Portuguesa aposentada. Exerceu a profissão de professora por 42 anos, tendo atuado no ensino fundamental, médio e superior. Graduada em Letras Vernáculas e Direito pela PUC-GO, com pós-graduação em Língua Portuguesa e também em Literatura pela UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira).