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Um velho pescador

Um velho pescador

Coloquei algumas roupas em uma mochila, apenas o necessário para um final de semana no campo, e fui para a fazenda que era dos meus avós. Hoje quem mora lá são dois primos. Eles são ótimos anfitriões. Além disso, no momento, para mim, é o lugar ideal. Isso porque quero escrever um conto sobre paz, e, esse, sem dúvida, é o melhor ambiente.

Cheguei à tarde, e encontrei uma mesa farta, com um café da tarde que faz jus às tradições culinárias goianas, bem-casadas com às mineiras.

 Depois do lanche, e de uma boa conversa, saí sozinho para o fundo da casa onde há um lago. Ele repousa diante dos meus olhos como um espelho esquecido, guarda muitas aventuras da minha infância; e, assim, cada pequena ondulação traz uma lembrança desses tempos que não voltam mais, porém se fazem presentes eternizados na alma.

Estava ali, buscando a inspiração para um conto. Levara um caderno, lápis e borracha. É assim que gosto de escrever. Mas não sabia o que registrar naquelas folhas em branco que aguardavam pacientemente, porém atentas, a primeira palavra. O vento agitava as folhas, e parecia que elas suspiravam esperando o instante em que uma ideia brotaria, não eram apenas páginas, eram um território à espera de sementes que quando chegassem brotariam e dariam bons frutos. O escritor, porém, não sabia o que escrever naquelas folhas em branco. Segurava o lápis como quem segura um remo diante de um mar calmo, sem corrente que indique o rumo,

Nesse momento, vi um senhor de idade avançada pescando. Aproximei-me quase que pedindo licença. Ele virou devagar, sem pressa, com a tranquilidade de quem não teme a interrupção. E quando me viu, esboçou um sorriso e perguntou:

_ O que fazes por aqui, rapaz?! Quer pescar também? Pegue uma vara aí na canoa. Tem isca também.

_ Desculpe, não quero pescar, quero apenas ver o lago e refletir, pensar na vida.

_ Você não atrapalha não, o tempo aqui anda lento, na mansidão.

_ Estou tentando escrever sobre a paz, mas não sei por onde começar. Pensei que vindo para cá, nesse silêncio e serenidade, longe da loucura e agitação da capital, eu poderia encontrar as palavras corretas. Mas as ideias não fluem. Porém, o senhor pode me ajudar. O senhor me lembra do meu avô, e sei que deve ter muita sabedoria de vida. Então me diga o que é a paz? O que podemos fazer para termos um mundo sem tantas guerras e violência?

                O pescador pensou um pouco, como se fosse lançar uma rede dentro de si, para pescar uma resposta, pois não queria decepcionar o jovem. Assim, fez uma pausa, lançando a linha na água como se cada palavra fosse pesada e precisa.

_ Sabe, meu filho, paz não é só um lugar calmo ou um momento sem barulho. A paz de verdade mora dentro da gente. Quando a gente tem a nossa paz interior, nada lá fora consegue bagunçar o coração. Nem o barulho, nem a pressa, nem a briga dos outros. E sabe o que é mais curioso? Quando a gente tem essa paz, a gente começa a espalhar, a passar para os outros. Sem querer, sem forçar. É como se o que estivesse dentro fosse tão grande que precisasse sair para fora. E se você tem paz, quando chega em algum lugar, mesmo que seja onde está acontecendo brigas e confusão, a sua calma se espalha. Você consegue ficar firme e calmo, e passa tranquilidade para os que estão a sua volta.

O pescador se calou. E eu resolvi deixá-lo imerso na sua pescaria. Peguei meu caderno que finalmente começou a ganhar linhas. Não eram apenas as palavras do velho que eu registrava, mas as memórias da minha infância, o riso dos amigos, os verões quentes correndo descalço, os banhos no lago, os conselhos dos avós, seus grandes ensinamentos e poucas broncas.

Fiquei animado por estar conseguindo escrever, e a primeira coisa que eu queria naquele momento era compartilhar isso com alguém. Foi, então, que resolvi realmente atrapalhar o velho pescador. Entretanto, quando me virei para perguntar-lhe se podia ler para ele as primeiras linhas do meu texto, não vi ninguém. Olhei em volta. Não havia nenhuma canoa, nenhuma vara de pescar, nenhuma pessoa, nenhuma voz. Só eu, o lago e o silêncio.

Resolvi ler para mim mesmo. Achei meu início de texto muito piegas, cheio de clichês. Sem hesitar rasguei as folhas e joguei no lago. E nunca soube dizer se aquelas palavras foram realmente ditas – ou se vieram de algum lugar dentro de mim.

Alguns dias depois voltei para a cidade. Peguei um congestionamento logo no início da manhã. Fiquei preso por horas no trânsito num calor infernal. Buzinas cortavam o ar, motores rugiam, motoristas pendiam para fora das janelas, braços erguidos, palavras cortantes lançadas ao vento. O ar vibrava de pressa e impaciência.

Por um instante, a ansiedade quis me dominar.             Mas lembrei-me do lago, das palavras do pescador, e das próprias memórias que as águas haviam trazido à tona. E assim, consegui manter minha serenidade. O caos continuava lá fora, mas dentro de mim havia um espaço silencioso, firme, onde nada poderia quebrar a calma que havia aprendido a guardar. No espelho retrovisor, por um instante, julguei ver o velho sorrindo. Por um instante, eu rosto me lembrou do meu avô, ou talvez fosse apenas a lembrança dele misturada com aquele homem, com se as palavras dele tivesse viajado gerações até chegar a mim.

Olhei o caderno no banco ao lado. As páginas continuavam aguardando novos registros, uma vez que os anteriores haviam sido descartados. Sorri. Talvez um dia eu escrevesse. Ou talvez, de alguma forma, o conto já existisse guardado entre o lago, a cidade e tudo o que vi e revivi, pronto para se revelar apenas na memória.

O trânsito começou a se dissolver lentamente, e eu avancei.

 

Doraney Carmo de Oliveira

Doraney Carmo de Oliveira,  63 anos, professora de Língua Portuguesa aposentada. Exerceu a profissão de professora por 42 anos, tendo atuado no ensino fundamental, médio e superior. Graduada em Letras Vernáculas e Direito pela PUC-GO, com pós-graduação em Língua Portuguesa e também em Literatura pela UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira).