Doraney Carmo de Oliveira
VOLTA
Doraney Oliveira
Coloquei algumas roupas numa mochila. Guardei pouca coisa; carregava muito mais dentro de mim. Estava de volta à cidade da minha adolescência ou, talvez, à cidade dos meus sonhos.
A estrada inteira foi acompanhada por ipês floridos. O céu, de um azul intenso, contrastava com o laranja das flores. O vento batia suavemente no meu rosto, enquanto uma ansiedade silenciosa me impedia de imaginar o que encontraria.
Algumas horas depois, o horizonte escureceu. Nuvens pesadas surgiram por trás das montanhas. O vento ganhou força, relâmpagos rasgaram o céu e, segundos depois, a chuva começou a cair.
Quando cheguei à cidade, a placa de entrada estava queimada pelo sol e descascada. A praça, a igreja e a fonte permaneciam praticamente as mesmas. Apenas algumas casas novas haviam surgido.
Passeei pelas ruas onde vivi parte da adolescência. O jardim do bairro continuava bem cuidado, mas o antigo terreno baldio dera lugar a um pequeno comércio. As árvores ainda faziam sombra sobre as calçadas, onde eu costumava caminhar sem pressa.
Parei em frente à casa dos pais de Pedro. Eu a reconheceria mesmo de longe.
O tempo havia passado. A casa fora reformada e, na parede, uma placa anunciava:
Dr. Pedro Jonathan Tavares – Médico.
Eu sabia que ele tinha ido estudar fora. Nunca mais tive notícias. Procurei por ele nas redes sociais algumas vezes, mas nunca o encontrei.
Logo o vi saindo de casa.
Ao seu lado, caminhava uma mulher. Logo atrás, duas crianças corriam pela calçada. Ele sorriu para elas antes de entrar no carro.
Continuei parada por alguns instantes.
Baixei os olhos. Numa poça de água, meu reflexo tremia entre as últimas gotas.
Doraney Carmo de Oliveira, 63 anos, professora de Língua Portuguesa aposentada. Exerceu a profissão de professora por 42 anos, tendo atuado no ensino fundamental, médio e superior. Graduada em Letras Vernáculas e Direito pela PUC-GO, com pós-graduação em Língua Portuguesa e também em Literatura pela UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira).