por Eduardo Marques Gamba
O conto do conto do vigário
Diz a inteligência artificial, que pouco a pouco vem substituindo a burrice natural, que o termo "Conto do vigário" se origina na disputa de uma imagem de Santa por duas paróquias próximas, em Minas Gerais. Diz a lenda que a estatueta foi amarrada a um burro, num ponto equidistante das duas freguesias e, quando solto, o muar se dirigiria ao local preferido da Santa, definindo seu lugar definitivo de pertencimento. Tal foi feito. O que não se sabia na ocasião é que o tal burro era do vigário de uma das paróquias, e na verdade se dirigiu para casa determinando o fim da disputa.
Essa modalidade de falcatrua não terminou nunca, apenas se modernizou. Evoluiu para o bilhete premiado de loteria que o farsante apresenta a um ingênuo, pedindo para descontá-lo na lotérica, à qual por algum motivo não pode comparecer. Para sua "garantia" pede ao trouxa que deixe com ele uma quantia a ser descontada do valor do bilhete resgatado, mais um "mimo" pelo trabalho. A ganância, tão humana quanto o bipedalismo, leva o "contado" a deixar algum com o "conteiro" achando que vai pegar um valor maior no bilhete e sumir. Ao descobrir que não tem prêmio nenhum retorna célere ao local onde fora feito de idiota, onde resta apenas sua estupidez. Pela internet se destaca mais recentemente o Principe Nigeriano.
Por um tempo eu me meus colegas de faculdade moramos com um amigo meu de velhas aventuras na Capital, recém aprovado na mesma escola superior. Uma figuraça, de origem catalã, tinha uma lábia envolvente, sedutora, capaz de vender bilhete premiado falso. Certa vez, tendo ele recolhido nosso dinheiro para pagar a luz, deixou-nos por um dias no escuro, tendo dado à grana ( alguém ainda fala "grana"?) finalidade incerta e não sabida.
De outra feita ele, que dava aula em um cursinho vestibular disse a um de seus (coitados!!!) alunos que poderia fazer uma das provas para ele com uma carteira de identidade falsa, por um quantia módica.
Acontece que no dia JL (meu amigo) dormiu e perdeu a hora. Depois justificou a seu aluno que o porteiro levantara suspeitas sobre o documento, e que seu "pagamento" fora usado para permitir que ele saísse sem maiores complicações, tais como chamar a polícia.
Assim era essa peça rara, que de repente sumiu. Talvez já habitando outros planos. Guardo dele muita saudade esperando que onde estiver, também se lembre de mim.
Aos colegas da República Cadavérica, Campinas, década de 70, século passado e lá vai!
Médico e professor universitário aposentado, vem se dedicando à escrita. Tornou-se admirador da literatura fantástica com Borges, Cortazar e Garcia Marquez.