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O Cuco

O Cuco

por Eduardo Marques Gamba

O CUCO

Ele fora do meu avô, morto havia anos. Já não funcionava, mas ainda tinha uma beleza circunspecta em seu canto na sala. Mogno e Cristal, pêndulo de latão dourado. Eu passava horas a examiná-lo em minúcias enquanto ficava só, na maior parte do dia, deitado no tapete, com carrinhos ao redor, imaginando corridas de fórmula 1, onde o vermelhinho, meu favorito, era sempre o vencedor.

Dona Dora, que trabalhava na casa desde o tempo de meu avô, ficava muito triste ao me ver sempre sozinho, mas tinha tantos afazeres que não podia me dedicar muita atenção.

Um dia, durante o almoço, me contou que o relógio havia parado no momento exato da morte do nono. Meus pais também não estavam em casa nessa hora, só ela tinha visto.

Certo tempo depois tive uma inflamação no coração, chamada de miocardite. Fui internado no hospital e pela primeira vez, acho, minha mãe ficou ao meu lado o tempo todo. O médico, achando que eu não escutava quando falava bem baixinho, disse a mamãe que o tratamento tinha resultados incertos e que um menino frágil como eu tinha mais risco, mas com medicamentos adequados tinha certeza de um bom resultado.

Ela chorava muito. À noite, quando meu pai chegou para substitui-la e permitir que descansasse, disse a ele o quanto lamentava por terem me deixado tão só para ganhar mais dinheiro, e o que puderam comprar jamais pagaria minha vida. Eu vi então uma cena rara: ambos abraçados, sem trocar palavras, estáticos diante do filho em perigo.

Na semana seguinte já me sentia melhor. O médico, otimista, disse que eu estava me recuperando bem. Pude ir para casa após 3 dias. Tinha muito ainda a percorrer para recuperar a saúde, mas poderia voltar a brincar e ler meus livros de histórias. Ao entrar em casa, vimos Dona Dora em posição de oração: O relógio voltara à vida. O pêndulo balançava em sua marcha comedida, e quando olhei a portinhola abriu e o Cuco saiu por ela após ficar anos escondido. Sua cantoria, Cuco-Cuco, saudava meu retorno.

 

Eduardo Marques Gamba

Médico e professor universitário aposentado, vem se dedicando à escrita. Tornou-se admirador da literatura fantástica com Borges, Cortazar e Garcia Marquez.