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Tigrão

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Tigrão

Crônica de Elenice Lietz

Foi o que me respondeu a garota de oito anos que mais parecia ter cinco, deixando ele escorregar colo abaixo. Segurado pela goela, quase desfalecido ou quem sabe disfarçando-se de morto, um gato cinza escuro rajado, melecado do tempo úmido e das condições do ambiente, tinha o status de distração principal, tal qual um iphone de última geração na mão de algum filhinho de papai como se diz por aí.

Tigrão, alegria e desespero, fome e enchente, pés descalços no resto de cimento bruto no chão da meia água, como se diz também por aí, quando só se tem metade do telhado porque faltou dinheiro para a outra.

 Roupas amontoadas, todas encharcadas no canto da casa de um cômodo só, será que o gato tem de comer?  Do lado direito do que o meu olho discretamente percebia, um colchão apenas, sem lençol, fronhas...imagina, algumas cobertas empilhadas no móvel, um tipo de gaveteiro todo desbeiçado e sem tinta, úmidos tal qual o gato que tenta se esconder em vão sob a cortina abaixo da pia. Tamanha miséria e falta do que fazer, sobrava toda atenção pro coitado. Fiquei imaginando qual a sorte o colocou nessa enrascada. Do rabicho de luz provisório cedido da vizinha ao lado, tudo cheirava a desespero, da porta de entrada ao fogão, uns quatro a cinco passos, algumas bacias sujas, copos foscos umas poucas misturas na panela, diante de nós uma jovem mãe, quatro filhos e mais um a caminho, prestes a se juntar aos demais no cuidado do felino. Já quase a dar à luz; o conflito maior: fazer um ultrassom, ou comprar outra carteira de cigarro; difícil escolha.

 Jovem, iludida por amores bandidos, diga-se de passagem,  ao ser questionada sobre os pais das crianças respondeu com sorriso amarelo: um morreu, outro desapareceu, um é traficante e o outro preso, não tenho com quem contar.

Confesso que eu tentava me concentrar no que a colega de trabalho dizia, pois afinal eu também precisava mostrar minha importância por estar ali, tentei algumas gracinhas com as crianças, elas por sua vez, brincavam além do miserável do gato, com uma daquelas bolsas de viagem com rodinhas, dessas que só se vê em aeroporto chique, aliás; como será que essa peça exótica foi parar ali? É certo que alguma madame ao comprar algum modelo novo despachou a obsoleta pra caridade.

Subiam, desciam da mala, prendiam o gato, soltavam o gato, fato é que a realidade só era brincadeira para as crianças; a testa preocupada da mãe dizia o contrário,  diante da situação e por não ter mais a quem recorrer a não ser a assistência social, olhava fixamente para o chão inundado, terreno de ocupação clandestina, clandestinamente alugado, e  eu quase podia ouvir seus pensamentos, a pobre com a mão sustentando a própria barriga e o filho mais novo ao lado, perguntava o que fez para chegar a tal ponto?

Saímos sem oferecer solução, eu mesma estava perdida, passei a noite sem dormir tentando em vão entender como é que Tigrão parou ali.

Texto revisado por : Rubem Penz

 

Elenice Lietz

Como psicóloga sei que cada pessoa carrega dentro de si histórias, imagens, silêncios, barulhos  e memórias. 

Expressar a subjetividade através da escrita produz autoconhecimento

Utilizo a escrita terapêutica pessoal e profissionalmente

A arte dá sentido significado e qualidade de vida às pessoas

Experimente!