por Eliane Silva
A pouca ou quase nula familiaridade dos manuais de história e literatura com as singularidades femininas tem sofrido, atualmente, algumas transformações. No entanto, não é de agora, que muitas mulheres marcaram presença entre a casa e a rua. Então, é por aí que começamos nosso conto.
Era uma vez na Nova Espanha, o século XVII e, depois, no México, o século XX. O século XVII trouxe a monja Juana Inés de la Cruz, uma das figuras e escritoras mais importantes da literatura mexicana. O século XX trouxe Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, que se transformou na importante pintora Frida Kahlo. Duas mulheres separadas não tanto pela geografia, mas pelo tempo. Se é que esse tipo de tempo existe. Se é que as questões que nos colocamos como novas são realmente novas ou apenas se transformam em maiores graus de consciência e adesões. Frida e Juana. Duas mulheres de trajetórias aparentemente diferentes que conseguem, com suas entonações, produzir significados que nos falam cada vez mais, até os dias de hoje.
Lembrando Michel de Certeau ao dizer que "o passado é, também, ficção do presente", talvez possamos aí acrescentar algumas tonalidades de verossimilhança. O passado não é simplesmente uma roupa que já não nos serve mais. Então, era uma outra vez e as assim conhecidas Frida Kahlo e Sor Juana se encontraram na velha Praça do Tempo.
Naquele lugar misterioso, onde tanta gente já tinha desafiado os tijolaços do cotidiano e sentado impunemente nos bancos da imaginação. De Sor Juana, apenas podíamos ver seu rosto e suas mãos. De Frida, não era muito diferente, pois usava uma roupa típica indígena à moda dos seus antepassados. Ora, sabemos como o rosto traz uma história. Muito já se escreveu sobre rostos. Suas reservas, seus ensaios no sentido de se proteger ou até mesmo controlar o outro. Mas não era esse o caso. E as duas se olharam com paixão durante um longo tempo.
Dizem que minha vida durou quarenta e quatro anos, cinco meses, cinco dias e cinco horas. Na clausura do convento em que vivi, hoje convertido numa Universidade, no México, transitei entre o sacro, o profano e o psicológico. Desafiei um mundo articulado e produzido basicamente por homens. Defendi o mesmo direito de acesso ao conhecimento, também para as mulheres. Ousei divergir teologicamente de um dos sermões do famoso padre Antonio Vieira. E escrevi Divino Narciso, onde personagens como Ocidente, América, Céu e Religião discutiam a violência da evangelização.
Minha cara amiga, saímos da terra com quase a mesma idade. Eu tinha quarenta e sete anos e não sei quantos meses e dias e horas e minutos mais. Já tinha escrito que esperava alegre la salida e não voltar jamais. E aí, desenhei um anjo negro. Apesar das cores fenótipas, minha alma e meu corpo sofreram muitas dores. Escrevi sobre isso com telas, tintas e pincéis. As nossas dores, a nossa consciência do mundo e das suas relações fluíram através das nossas mãos. Você escreveu e se escreveu. Eu pintei e me pintei. Com palavras, sentenças, textos, imagens, traços, cores e desenhos. Preenchemos folhas e telas que estavam nuas. Não as deixamos como estavam. Ousamos. E, separadas por três séculos da terra, agora aqui estamos.
A vida com consciência nunca é fácil. Por ser mulher, para aprender, uma vez cheguei a propor a minha mãe, que me mandasse à escola em trajes masculinos. Por coincidência e muito depois deste pedido cheguei a ver fotos suas em tais vestimentas. No meio da sua família. Ah! O Espírito das roupas! Elas também podem ser letras, pincéis e tintas que usamos para satisfazer ou contestar o social em que estamos vivendo. Uma vestimenta de monja pode também incomodar e trazer desconfortos sociais. Eu, por exemplo, nunca quis ter marido nem cuidar de crianças ranhentas. Queria silêncio para poder ler, escrever, aprender, compor e trabalhar com meus aparelhos científicos.
Já eu queria filhos. Mas me foram arrancados do útero enquanto fetos. Nunca consegui tê-los em meus braços e trocar um afeto, um calor, um olhar. E eu escrevi essas coisas nas minhas telas. Também escrevi sobre homens que matavam as mulheres. Escrevi com meus pincéis, cores e traços, o meu nascimento, o momento de saída do corpo da minha mãe. Depois fui crescendo e passei a defender a resistência ao imperialismo europeu e o retorno à cultura dos astecas. Nas minhas palavras, nas minhas telas, nas minhas cores, nos meus pertencimentos, nas minhas roupas. Foi assim que pintei As duas Fridas. Tanto a Frida em traje tehuano como a de estilo europeu. Não sorriem. Estão reflexivas e trazem seu coração à mostra. Foi arrancado do corpo. Assim como no México. Assim como na sua Nova Espanha, minha amiga. De resto, sempre disse, naquela vida, que pintava a mim mesma por ser sozinha e por ser o assunto que conhecia melhor.
Houve uma vez, então, essas duas mulheres. Duas clausuras. Duas formas de solidão. Duas falas e sabe-se lá quantos silêncios porque todo tempo e toda sociedade tem suas proibições. Mesmo assim, encontramos essas duas mulheres, na Praça do Tempo de hoje, que ousam forçar esses limites e deixar fluir muitas outras vozes através das suas. Dialogar com elas, agora, fazer isso a partir do nosso mundo de hoje, é manter vivo e pulsando tudo aquilo que delas herdamos. Mas aí, devemos ter muito cuidado. Pois, como já vimos, caro leitor, aqui mesmo nesta Praça, "o passado é, também, ficção do presente".
Fim do conto.
(Publicado na Coletânea Abya Yala: A vida dos Povos Ancestrais da América; coordenação de Alcy Cheuiche. Porto Alegre: Editora do Pampa, pág. 80.)
Bacharel em História pela PUCRS, com pós-graduação em Teologia e Ciências Socias. Atualmente desenvolvendo formação em Psicanálise e Graduação em Letras, interrompidas desde o semestre passado. Meu interesse em ler supera o de escrever. Mais voltada para o texto teórico e acadêmico, tenho me dedicado a gêneros literários como romance, crônica e conto. Como consequência, estou participando de diversas coletâneas, por enquanto.