Estive na casa da minha mãe, que já foi dos meus pais e ponto de encontro dos filhos com suas respectivas famílias. A última vez que fui até lá foi há mais de um ano.
Naquele dia, enquanto minha mãe servia o almoço, sentei à mesa e fiquei observando os pratos e as panelas dispostas. Me deixei envolver pelo cheiro da comida caseira e lembrei da casa cheia: as crianças correndo, perguntando o que teria para comer, escolhendo um lugar para sentar. Os adultos deixando a sala em direção à mesa de jantar, comentando o cardápio, puxando uma cadeira qualquer para se acomodar e desfrutar de um verdadeiro banquete.
— A carne está no ponto!
— Quem quer refri?
— Tem suco?
— Hummm, esse feijão tá muito bom!
Fechei os olhos para abraçar as lembranças que se formavam na minha mente. Deixei escapar um sorriso e uma lágrima discreta. A saudade permaneceu.
Ao abrir os olhos, o espelho à minha frente revelava um novo tempo, um novo eu e uma nova configuração familiar. Em silêncio, agradeci pela oportunidade de estar ali mais uma vez, compartilhando aquele momento com quem ficou.
Mais tarde, fui ao cemitério da cidade visitar o túmulo do meu pai. Acendi uma vela e pedi luz para o seu caminho. Falei da falta que ele faz e encarei a foto na lápide, aquela que ajudei a escolher e que ainda preserva o brilho do seu olhar. O tempo pareceu suspenso enquanto permaneci imóvel diante dele.
Ao final do dia, mandei uma mensagem para o meu irmão:
"Voltei à casa da mãe. Senti falta de vocês".
No mesmo instante, ele respondeu:
"Eu estava pensando nisso hoje. Nos almoços na mãe. A gente nunca sabe quando vai ser o último, né?".
Texto revisado por Catarina de Fátima Machado
Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.