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No lugar do dente

No lugar do dente

No lugar do dente

– Meu dente caiu!

Pedro atravessou o salão correndo em direção à nossa mesa, os pés descalços e a pressa de quem havia interrompido a brincadeira só para dar a notícia. Entregou o dente ao pai, pediu que o guardasse e voltou para o pátio.

O pai embrulhou o dente num guardanapo de papel e o deixou sobre a mesa, entre o celular e os copos de refrigerante.

A festa seguiu com o parabéns, o balão surpresa estourado, e as crianças, animadas, correndo para recolher os doces espalhados pelo chão. 

Mais tarde, vieram as despedidas, adultos reunindo seus pertences, e pais chamando os filhos que imploravam para ficar um pouco mais. 

Já no carro, Pedro perguntou pelo dente.

O pai demorou para responder e, com um aperto no peito, confessou:

     – Eu esqueci o dente lá, filho. Sinto muito. 

Pedro ficou em silêncio por um instante e, entre lágrimas, desabafou:

    – Acho que aquele era meu último dente de leite. E eu queria colocar ele embaixo do travesseiro para a visita da fada. 

Em casa, o menino foi direto para o seu quarto e fechou a porta. 

Minutos depois, apareceu com uma folha em branco, pediu uma caneta e escreveu:

"FADA, EU PERDI MEU DENTE NUMA FESTA. MAS EU QUERIA MUITO QUE VOCÊ, INVÉS DE PEGAR O DENTE PEGAR A CARTA".

Dobrou o papel, voltou para o quarto e o colocou debaixo do travesseiro. 

Na manhã seguinte, a família acordou com um chamado animado:

   – Mãe, pai, olha! Uma moeda! 

A fada aceitou a carta no lugar do dente.

Texto revisado por Rossana Araripe Lindote

Elisa Lempek

Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983. É mãe de dois, psicóloga e escritora.

Como psicóloga, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória, com atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para a experiência humana e o cotidiano.