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Quantas vezes?

Quantas vezes?

Quantas vezes?

Saí da academia com aquela sensação boa de dever cumprido, já pensando nos próximos passos do dia. Antes de começar o preparo do almoço, passei no supermercado para pegar algumas frutas para o lanche das crianças.

Na fila do caixa, equilibrava a cesta em uma mão enquanto respondia mensagens no WhatsApp com a outra. Foi então que o senhor à minha frente se virou e, com um gesto simples, cedeu seu lugar.

Por um instante, pensei em sorrir, agradecer e dizer que não precisava. Afinal, eu era mais nova e ele, pela idade, teria prioridade. Mas, antes mesmo de pensar muito, aceitei. Dei um passo à frente e agradeci a gentileza.

Enquanto colocava as frutas na esteira, comecei a me perguntar o que teria motivado aquela atitude. Gentileza espontânea? Cordialidade? Ou talvez uma forma de preservar um certo cavalheirismo que não quer se perder com o tempo?

Fiquei pensando se, de algum modo, aquele ato também era uma maneira de se posicionar no mundo, não como alguém que precisa de prioridade, mas como alguém que ainda escolhe oferecer.

Fiz o pagamento, guardei o celular na bolsa de treino e saí do supermercado levando comigo as sacolas e algumas reflexões que me acompanharam pelo caminho:

Quantas vezes, na tentativa de sermos corretos, justos ou até coerentes, negamos ao outro a oportunidade de ser quem deseja ser, mesmo que seja por um instante?

Quantas vezes recusamos gestos que dizem mais sobre o outro do que sobre nós?

Quantas vezes nos permitimos dar um passo à frente, ou, ao contrário, um passo atrás, para ocupar um lugar que faz mais sentido?

Cheguei em casa ainda tocada, com a mente revisitando aquele encontro e com a sensação de que havia sido mais do que uma troca de lugares.

 

Texto revisado por Marcelo Tacuchian

Elisa Lempek

Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983. É mãe de dois, psicóloga e escritora.

Como psicóloga, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória, com atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para a experiência humana e o cotidiano.