por Elisa Lempek
No início das férias escolares de julho, durante uma conversa com uma amiga, comentei:
— Preciso encontrar um lugar para o Pedro.
Eu não estava me referindo a um espaço físico, necessariamente, mas a um lugar onde ele pudesse ser quem ele é, livre de julgamentos, onde pudesse conhecer pessoas, compartilhar interesses, fazer novas amizades.
Naquele mesmo dia, lembrei que, perto de casa, havia um local voltado para jogos e cultura geek. Fui pesquisar o que significava ser geek.
Descobri que o termo é usado para se referir a pessoas que têm grande interesse por determinados universos, hobbies ou áreas como tecnologia, games, filmes, séries, cultura pop e, entre tantas outras coisas, Pokémon.
É isso! — pensei.
Pedro havia voltado a se interessar por sua coleção de cartas Pokémon depois de completar o álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Talvez aquelas cartas pudessem ser uma ponte para o que eu estava procurando.
Pesquisei no Instagram, fiz contato pelo WhatsApp e agendei um horário para conhecer o local. No dia da visita, Pedro levou sua coleção de cartas e eu, a esperança.
Ao chegar, fomos recebidos com gentileza e cordialidade. A equipe nos explicou o funcionamento da loja, perguntou sobre nossas preferências e nos orientou sobre a programação que poderia nos interessar. Nos sentimos acolhidos e à vontade.
Depois das apresentações, fomos explorar o local. A sala principal estava cheia, mas com espaço para todos. A luz suave, as mesas de madeira e o som ambiente criavam uma atmosfera tranquila e convidativa. Havia cartas coloridas espalhadas sobre algumas mesas, pastas nas mãos de quem circulava por ali, conversas descontraídas acontecendo ao redor. Algumas duplas, muito concentradas, jogavam Pokémon TCG, o jogo de cartas físicas colecionáveis de Pokémon. O clima era leve e despertou em mim uma sensação de conforto e bem-estar.
Puxei uma cadeira para me sentar e fiquei observando cada detalhe enquanto Pedro se integrava ao grupo. Ele era a única criança em meio a adultos de todas as idades, mas isso parecia não fazer diferença, afinal, todos estavam ali para compartilhar o mesmo interesse e se divertir.
O cheiro de café da cafeteria ao lado da sala logo me envolveu e não demorei para pedir um cappuccino com chantili. Consegui resistir às tortas, prometendo a mim mesma que voltaria numa outra oportunidade, para experimentá-las.
Enquanto apreciava meu cappuccino, senti meus olhos marejarem ao observar meu filho tão engajado naquele grupo desconhecido, mas generoso e receptivo. Ele fazia perguntas, curioso e interessado. Escutava as respostas ora com atenção concentrada, ora com a atenção dividida, típica de quem está atento a tudo o tempo todo. Não o vi roendo as unhas, mas seu corpo estava em movimento constante. Notei que havia sempre alguém em contato com ele para mostrar uma carta, indicar um site, explicar uma jogada, interagir de alguma forma, com muito respeito e paixão por aquele universo. Percebi sorrisos espontâneos, cumprimentos sinceros e uma onda de gratidão tomou conta de mim. Pedro estava feliz, e eu também.
Foi uma noite de grandes descobertas! Voltamos para casa com a sensação de que aquela seria apenas a primeira de muitas experiências. E foi! Retornamos na semana seguinte, e na outra, e na próxima?
Começamos a reconhecer os rostos de quem frequentava a casa, descobrindo, pouco a pouco, as particularidades de cada um. Passamos a chamar os proprietários pelo nome e construímos, com eles, uma relação de confiança e proximidade. Aprendemos a jogar e nos divertimos muito. Pedro conheceu outras crianças, iniciou suas coleções e participou de torneios. Eu conheci mulheres, mães, casais e famílias. Já experimentamos alguns sabores de pizza e de outros doces. Ele se tornou fã do brownie de chocolate e eu, de todas as tortas e cafés. Com o passar das semanas, fomos conhecendo quem chegava e sendo reconhecidos por quem já estava lá. Aos poucos, deixamos de ser visitantes e nos tornamos membros daquela comunidade.
Neste final de semana, faz dois meses que saí de casa à procura de um lugar para o Pedro. Não imaginava que, entre cartas, cafés, conversas e encontros, acabaria encontrando também um lugar para mim.
Hoje, celebramos juntos seu primeiro título de Campeão Júnior em uma League Cup, na Taverna Turno Extra, Um Lugar que ganhou o nosso coração.
Texto revisado por Cinthya Nunes e Juliane Hosang

Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.