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O Gosto do Tempo

O Gosto do Tempo

por Elisa Mariz

O Gosto do Tempo

Por Elisa Mariz

O domingo pulsava na Avenida Paulista. Tínhamos acabado de sair do Reserva Cultural — espaço de cinema, um refúgio da arte para uma pequena pausa no ritmo da vida —, trazendo ainda nos olhos as imagens do filme e, na alma, a disposição para discutir sobre o que havíamos visto e outros temas com Helena. Estar com ela é sempre um exercício de expansão: sua presença alarga meu olhar, desloca certezas, abre novas perguntas. Aos 85 anos, carrega uma cultura vasta e diversificada, uma força sutil e um interesse inabalável pelo mundo em que vivemos.

Enquanto apreciávamos, sem pressa, o café, olhávamos a avenida viva. Através das paredes de vidro, as calçadas parecem transbordar porque se unem ao espaço antes reservado aos carros e, aos domingos, o asfalto vira passeio livre, aberto a todos: artistas de rua costurando melodias no ar, pessoas de todas as idades circulando com seus afetos, pets que desfilam ao lado de seus donos, pombos que surgem entre passos e pernas, turistas tateando a imensidão de pedra e empreendedores oferecendo seus produtos. A Avenida era um grande palco aberto. Entre um assunto e outro, falávamos sobre essa engrenagem humana.

Muitas vezes, as palavras de Helena teimavam em falhar. Uma frase sumia na curva do pensamento, um substantivo escapava. Mas seu repertório, imenso e em constante ampliação — ela lê diariamente —, parecia ajudá-la a reencontrar o termo exato e retomar o fio do pensamento.

Foi então que o presente se dissolveu para dar lugar à memória mais bonita daquela tarde. A amiga começou a me contar sobre o telefonema que dera cedo para a prima, que hoje mora em outra cidade. As duas haviam sido vizinhas em São Paulo e compartilhado, até os 30 anos, os segredos da juventude. Ao ouvir a prima, Helena resgatara o apelido doce que só aquela cumplicidade antiga guardava: Lena.

Enquanto falava, parecia flutuar sobre a distância geográfica. Descreveu o café da manhã sincronizado: as duas, cada uma em sua mesa, em cidades diferentes, partilhando o mesmo instante. O cardápio de uma não era o da outra, mas jurava que, daqui de São Paulo, conseguia sentir o sabor exato da bebida que a prima tomava lá longe.

Ao contar, um sorriso doce começou a iluminar seu rosto, como se ela própria experimentasse outra vez aquilo que narrava. À medida que o relato avançava, as falhas na fala desapareceram. O entusiasmo operou um milagre linguístico: as palavras começaram a fluir sem qualquer interrupção — límpidas, sonoras, velozes. Fui inteiramente envolvida por aquela cena. Ela não estava apenas lembrando; ela experimentava o tempo. A sensibilidade madura dos 85 anos se encontrava, perfeitamente, com a eletricidade e a energia dos seus 30. Eu não apenas ouvia; via a cena acontecer diante de mim.

O ápice daquela projeção invisível veio com a pureza da infância.

Contou-me que, do outro lado da linha, uma criança — bisneta da prima — aproximou-se devagar da mesa. A prima ofereceu o telefone à criança e perguntou:

— Quer falar com a Lena?

A criança pegou o telefone e, com a naturalidade de quem não sabe que está atravessando décadas, chamou:

— Lena?

O som daquele nome, pronunciado primeiro pela cúmplice de outrora e logo depois pela voz nova daquela criança, atravessou gerações em um segundo. Ouvir o próprio apelido, ecoado de um passado tão distante e agora vivo na boca do futuro, desarmou Helena.

Lá fora, a Paulista seguia pulsando. Pessoas passavam, cães puxavam seus donos, bicicletas cortavam o asfalto, vozes se misturavam aos sons da rua. Mas, para nós duas, naquele instante, o tempo parou.

Olhei para o lado e vi o rosto da minha amiga ficar molhado. Não era apenas a saudade dos anos que chorava ali; era a beleza indestrutível da vida que, quando menos se espera, encontra uma brecha para transbordar.

Elisa Mariz

Elisa Mariz é professora e pesquisadora do envelhecimento ativo, com foco em protagonismo sênior. Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pela Universidade de Coimbra, em Portugal. Iniciou, em 2015, estudos de pós-doutorado na University of Oxford, na Inglaterra. Autora dos livros Além dos 60: lições de vida de brasileiros e portugueses, Memórias de Dadinha, Salviano: Caminho para Itabaiana e ULUGAM, infantojuvenil. Publica crônicas sobre protagonismo, a importância das conexões sociais e os sentidos do viver na longevidade.