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O Novo Velho

O Novo Velho

O Novo Velho

Minha avó materna escrevia cartas às amigas de vários cantos do Brasil. Tinha uma caligrafia impecável e um talento natural para a escrita, apesar de ter sido alfabetizada em casa durante quatro meses. Dedicava horas a redigir longos textos em bico de pena, sentada à sua escrivaninha, onde mantinha um pequeno altar com os santos protetores e também seus cosméticos.

A cada mês eu era convocada para ajudá-la a buscar sinônimos e enriquecer seu repertório. O processo era lento e exigia paciência, mas eu gostava da recompensa: ouvir suas histórias e tomar o chá da tarde com ela. A menina de dez anos conheceu o dicionário e aprendeu a usá-lo, apoiado no colo. Era uma chance para muitas descobertas e surpresas. Lembro da expressão um 'turbilhão de saudades' que ela usou na carta para uma amiga de infância que mudara para longe. Cresci, estudei, comecei a trabalhar e com meu primeiro salário me dei de presente o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa[i].   Anos depois adquiri o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa[ii], que guardo comigo. Com a facilidade da tecnologia, admito que minhas consultas são feitas na Web.

As lembranças alimentam a alma e o desejo de reviver essa experiência. Pego o Houaiss, coloco-o no colo, ajusto os óculos e começo a buscar sinônimos para a palavra 'velho'. Encontrei substantivos como: homem idoso, ancião; adjetivos:  com muito tempo de vida, desgastado pelo tempo, antigo, antiquado, desatualizado e obsoleto; a expressão carinhosa 'meus velhos', usada para se referir aos pais, avós e amigos. Enquanto o dicionário apresenta significados diretos, precisos para humanos e coisas, nós interpretamos e usamos as palavras influenciados por valores socioculturais de cada época.

 

Em 2006, iniciei estudos e pesquisas no tema envelhecimento, bem-estar e vida ativa na população longeva. Conversei com muitas pessoas. Ouvi inúmeros relatos sobre o sentimento de exclusão e desvalorização, por serem vistas como ultrapassadas — não apenas por jovens, mas até por pessoas da mesma faixa etária. As manifestações  vinham de pessoas de vários nichos, incluindo familiares, que, por estarem presos à aparência, julgavam idosos como obsoletos, sem enxergar além da superfície, quando, na verdade, deveriam olhar para a história de cada um, sua maturidade, autenticidade, talentos e o conhecimento acumulado ao longo da vida.

Acrescento que, aos maiores de 60 anos, o desafio não está apenas na aceitação externa, mas também na interna. Como encontrar beleza e valor em um corpo que muda? Como aprender a enxergar além da forma e dar peso ao conteúdo? A resposta pode estar em um equilíbrio desafiador: cuidar-se sem a obsessão de parecer jovem, valorizar o que o tempo traz sem desconsiderar o impacto da transformação.

Sou parte desse grupo. Assumi meus cabelos brancos, trago no corpo as marcas do tempo e, nas mãos e no rosto, as mais visíveis, mas luto diariamente para afugentar o declínio físico e mental, aceitar as mudanças e enfrentar o olhar do outro.  A expectativa de vida no Brasil em 2025 é de 76 anos. A ciência é a principal responsável por essa conquista, mas cabe a nós fazermos a nossa parte enquanto protagonistas da vida, esta jornada, finita.

Somos parte da sociedade que glorifica a juventude e atribui o maior valor à estética. Em nosso país já somamos mais de 30 milhões de longevos e, nesta era, nos cabe reinventar um estilo de vida com realismo, sem suposições. Carregar na pele e na mente a história de quem já amou, errou, acertou e ganhou longevidade, resgatar o que temos de melhor nesta fase madura; afinal, como diz o poeta, o sabor da fruta só vem quando ela amadurece. Um novo modo de vida alicerçado na percepção consciente, na finitude e no desejo de aprender novas habilidades,

cultivar emoções positivas, habilitar-se para desenvolver novas relações com idosos, adultos, jovens e crianças. Aprimorar as competências para conseguir a conexão com todas as gerações e, como diz a psicologia positiva, a gratidão floresce e a sociedade se torna mais inclusiva e vibrante.

O longevo é mais lento, sim, mas o ditado popular reza que 'a pressa é inimiga da perfeição'. A experiência tácita desaparece enquanto a tecnologia avança, veloz e precisa. Socializar, interpretar, ouvir, estar junto, dar sentido ao tempo — ainda é para muitos, função humana. Temos motivos para agradecer por perdurar, resistir, como a árvore centenária que continua dando sombra, frutos e reservando água para o ecossistema

Ser velho é, enfim, uma conquista. É ter a chance de olhar para trás com gratidão e para frente com curiosidade. Porque ainda há muito para viver, aprender e transformar. É existir com raízes profundas, estar bem ancorado em sua própria história. É aprender com as árvores, que se agarram ao solo para não tombar antes da hora, mesmo quando os ventos da mudança balançam seus galhos. É inspirar-se no bambu, flexível, que resiste, se curva, mas não se quebra. Envelhecer é aprender e aceitar que a passagem do tempo não diminui o valor de quem somos — pelo contrário. Cada cicatriz conta uma história, cada sulco na casca revela resistência.

O velho não é um vestígio do que foi, mas a prova viva do que resta. O que perdura tem valor. O que resiste, ensina. O que atravessa as eras não é descartável — é essencial. Uma ponte antiga que segue ligando caminhos. Uma chama persistente que segue aquecendo. Raízes fortes, mantém viva a floresta inteira. Ser velho é ser alicerce. É compreender que o novo só floresce porque algo antes o sustentou. 

A vida não se mede pelo tempo que passa, mas pelo que permanece. E o que fica é o que tem significado, o que criou vínculos, o que fincou raízes na existência dos outros. Na antiguidade,

o velho era fonte de sabedoria, o contador de histórias, o mestre da experiência. O melhor da arte, da cultura, dos ditados populares, das canções, atravessam gerações — muitos são imortais.

Velho também é cultura, é recompensa, é paciência. Lute, insista, persista, resista, registre sua história, deixe um legado. Velho não é obsoleto, antiquado ou desatualizado. Velho não é fim. Velho é fundamento.   Enquanto estiver vivo e ciente de seu projeto, de seu eu, estará sempre em movimento. Velho é vida. Vida com propósito e sentid

 

[i] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira

 

[ii] Instituto Antônio Houaiss

 

Elisa Mariz

Escritora, Pesquisadora do envelhecimento ativo

Elisa Mariz

Elisa Mariz é professora e pesquisadora do envelhecimento ativo, com foco em protagonismo sênior. Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pela Universidade de Coimbra (UC), em Portugal. Autora dos livros Além dos 60: lições de vida de brasileiros e portugueses, Memórias de Dadinha, Salviano: Caminho para Itabaiana e ULUGAM, infantojuvenil. Participa também de coletâneas de contos e crônicas.