Ao longo dessa estranha jornada como leitora e, mais recentemente, como escritora, ouvi muito sobre a primeira página do livro. Luís Antônio de Assis Brasil, no livro Escrever Ficção, afirma que a primeira página funciona como um contrato com o leitor. Em outras palavras, ela deve "prender" o leitor à narrativa, criando expectativa para o que virá nas páginas seguintes. E não acho que ele esteja errado.
Os leitores tradicionais, de fato, buscam o enredo e até mesmo a emoção da narrativa já na primeira página do livro. Ela deve responder à pergunta: "Por que devo ler este livro?". Muitas narrativas perdem seu encanto justamente nesse ponto, com excesso de descrições ou cenas vagas que não aparentam levar a lugar nenhum. É uma pena: muitas histórias boas podem estar escondidas em primeiras páginas mal planejadas.
Todavia, tenho observado uma tendência crescente entre jovens leitores: começar um livro pela última página. Sim, parece completamente absurdo. O que se pode entender da narrativa apenas pelo seu desfecho? Há, de fato, alguma magia nessa página? Aparentemente, sim.
Vivemos em um mundo cada vez mais acelerado, em constante busca por otimização — e, na literatura, isso não é diferente. Cada vez mais vemos a ascensão de Bookstagrammers e BookTokers divulgando massivamente uma infinidade de novas narrativas. Com o crescimento das IAs, essa publicidade tem se tornado cada vez mais criativa — ou você nunca viu um booktrailer? O trabalho desses produtores de conteúdo é instigar os leitores a buscarem a narrativa completa, e é nesse ponto que entra a magia.
Os jovens leitores procuram narrativas com as quais já tiveram algum contato, geralmente por meio das redes sociais, e, ao encontrá-las, recorrem à última página em busca de um desfecho que responda à pergunta: "Realmente vale a pena ler este livro?". E não estamos falando do clássico "E foram felizes para sempre". Há uma necessidade de emoção e tensão até a última linha. Finais abertos, sem uma real promessa de continuação, não são as melhores opções para preservar essa magia — assim como finais previsivelmente óbvios.
Caros colegas de jornada, talvez estejamos entrando em uma fase em que não se trata mais de como começar uma narrativa, mas de como encerrá-la. O que você pensa sobre a última página de um livro?
Sou formada em Pedagogia e Escrita Criativa, com diversas especializações e cursos complementares em ambas as áreas. Atuo com literatura e entretenimento desde 2020 e, em 2025, lancei o livro de poemas Fragmentos do Agora. Meus principais eixos de atuação são a literatura especulativa — incluindo fantasia, horror, distopia, utopia, pós-apocalíptico, realismo mágico, história alternativa e omegaverse — e a cultura asiática voltada a narrativas de romance entre personagens do mesmo gênero.
Iniciei minha trajetória em revisão textual ainda durante a graduação, quando participei da revisão da antologia À Beira D'água. Desde então, venho consolidando minha atuação na área, aliando prática profissional à formação contínua. Atualmente, aprofundo meus conhecimentos técnicos por meio do Curso de Revisores da Metamorfose, com foco no aprimoramento linguístico, normativo e editorial.