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ANA CLARA (Revisto)

ANA CLARA (Revisto)

por Ildeu Geraldo de Araújo

ANA CLARA

(Revisto)

A campainha toca, levo um susto, não me lembro da última vez que a campainha tocou. Desligo o fogão, deixo o pacote de miojo em cima da pia, vou até a sala e abro a porta do apartamento, uma mocinha muito bonita me pergunta:

— O senhor é o Alberto da Fonseca?

— Sim. Este é o meu nome.

Ela baixa os olhos, depois olha para mim com a respiração suspensa. Os olhos se dilatam e depois se contraem.  

— Minha mãe me disse tipo que o senhor é meu pai.

O espanto me imobiliza por um instante. Aquele rosto me parece familiar. Seus olhos castanhos e mansos, seus cabelos encaracolados, as covinhas nas bochechas salientes trazem de volta o amor que deixei na minha terra.

Peço a ela que entre e pergunto seu nome.

— Ana Clara, mas pode me chamar de Clarinha.

Ajudo a tirar a mochila de suas costas e a coloco em cima da poltrona.

— A Juliana vai bem, Clarinha?

— Mamãe está legal. Como que você sabe que minha mãe se chama Juliana?

— Porque você deve ter uns 17 anos e há 18 anos eu estava apaixonado pela Juliana, e nunca mais me apaixonei.

— Minha mãe me disse que você tipo nunca voltou nem nunca escreveu.

Preferi ocultar que tinha escrito muitas vezes e nunca havia recebido uma resposta.

— Seu avô continua com toda aquela brabeza? Ele me disse que não queria nem ver minha sombra por aquelas bandas.

— Brabo feito um marruá, mas come nas minhas mãos.

Sorrio imaginando a cena. Eu também comeria naquelas mãozinhas. Vamos para a cozinha onde preparo um miojo, meu jantar de todo dia. Coloco dois pacotes na água fervente e ela me conta como chegou até mim.

— Eu achei um retrato do casamento tipo numa gaveta e minha mãe estava com um barrigão deste tamanho. Meu pai, quer dizer o Antônio, tinha tipo passado um ano fora e regressou à minha cidade tipo seis meses antes de eu nascer. Aí eu fiz as contas, não batia. O meu pai, quer dizer, o Antônio, é um cara tipo muito legal. Ele casou com minha mãe grávida e me registrou como sua filha.

— É o Antônio da Sinhana?

— É ele mesmo. Mas aí eu comecei tipo a querer saber quem era mesmo o meu pai. Minha mãe não queria me contar; aí o Antônio disse pra ela:

— Conta pra Clarinha, ela tem o direito de saber.

O miojo fica pronto, jantamos.

— Você pousa aqui hoje?

— Amanhã eu tenho aula.

— Vem passar as férias aqui comigo!

Clarinha deu uma olhada na salinha, abriu a porta do quarto olhou a cama desfeita, as roupas no chão, os livros amontoados no chão e sobre o criado mudo.

— Venho, mas você tem que me deixar arrumar esta bagunça.

Eu a levo até à rodoviária, começando a sentir saudades daquela filha que invade minha vida feito um vendaval. Na despedida ela estende a mão:

— Bença, pai!

Dou-lhe um abraço longo e apertado.

Ildeu Geraldo de Araújo

Ildeu Geraldo de Araújo nasceu, em 1938, viveu em Belo Horizonte a maior parte de sua vida. Casado com Maria Nylza, desde 1963, tem cinco filhos e seis netos. Formou-se em engenharia mecânica e elétrica pela UFMG e exerceu seu ofício por vinte e cinco anos na Usiminas, Universidade do Trabalho, Tecnokor. Depois foi consultor e dirigente empresarial por vinte e seis anos. Publicou, pela ARTEAR editora, o livro de contos "Da fortuna de amar" – 2020 e a novela "Terra firme entre as ondas" – 2022, que trata da relação familiar de uma empresária, um sindicalista e a jovem filha do casal no ambiente da ditadura militar e da redemocratização ocorridas no Brasil no século XX.