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O Brinquedo

O Brinquedo

por Jorge Pedro Almeida Lima

Cidália ajustou os óculos enquanto dava os últimos retoques no bordado do vestido que recebeu como encomenda.  A entrega para a cliente seria na manhã do dia seguinte. Seu bordado, preciso e elegante, era admirado pelas freguesas; sua simpatia e sorriso contagiante, estimados pelos vizinhos. Em uma cadeira ao seu lado, uma pilha de outros vestidos já bordados aguardava o último ficar pronto para encerrar aquele lote.

Estava sentada à mesa na sala do seu pequeno apartamento, quando avistou sobre a mesa um robozinho, que ela mesma havia colocado ali. Tinha um braço quebrado e, onde deveria existir uma chave para dar corda no brinquedo, havia um buraco. Ela fixou seus olhos sobre o brinquedo e, como em um passe de mágica, ouviu gritos e risadas de criança, o barulho do corre-corre pela casa que seu filho João Pedro, o Pedrinho, fazia quando brincava com ele.

Quase sempre, a brincadeira terminava em um barulho estridente de algum bibelô que se espatifava no chão. O menino escondia o rosto com as mãos e dava uma gargalhada quando ela o surpreendia em plena peraltice.  Ela ralhava, mas era desarmada por um beijo estalado nas bochechas dado pelo pequeno. Por instantes, se perdeu em devaneios, até que a agulha veio pinicar-lhe os dedos. Tinha trabalho a fazer. Sacudia a cabeça como que acordando de um sonho e reiniciava o bordado.

Cidália contratou uma empregada para tratar dos afazeres de sua casa, pois estava assoberbada de serviços de costuras e bordados e mal lhe sobrava tempo para os afazeres domésticos. Seu nome era Luiza, uma jovem alta e forte, de modos simples. Começou a trabalhar na casa no dia seguinte, mostrando disposição e boa vontade para o trabalho.  A patroa a deixava sozinha trabalhando, enquanto saía para fazer as entregas de bordados para suas clientes.

Foi em uma dessas manhãs que ela encontrou o brinquedo. Velho, quebrado. Segurou-o nas mãos enquanto o observava. Meneou a cabeça e recolocou o brinquedo de volta sobre a mesa. Pegou na vassoura, continuando a varrer a sala.

Uma semana se passara desde que Luiza fora trabalhar na casa de Cidália e seu incômodo com o brinquedo só aumentava. Até que, não resistindo, Luiza jogou-o em um saco plástico junto com o lixo da faxina daquele dia. Quando Cidália chegou à casa após entregar uma encomenda de vestidos, deu por falta do brinquedo.

? Não se preocupe, Patroa. Joguei no lixo ? disse Luiza com um sorriso.

 ? Jogou no lixo?  ? perguntou Cidália, franzindo o cenho.

 ? É. Estava enfeiando a sala. Achei que a senhora nem queria mais aquilo. ? A empregada tentou desculpar-se.

? Aquilo? ? A voz da patroa saiu como um soco. A mão, ainda segurando a agulha, tremeu. Antes que Luiza pudesse recuar, uma tempestade de gritos rompeu o silêncio do apartamento, palavrões que Cidália nem sabia que guardava, lançou contra a jovem, que apenas ouviu a porta do apartamento bater atrás de si e viu-se posta na rua.

Cidália sentou-se à mesa para costurar uma nova encomenda de bordados e, não avistando mais o brinquedo sobre a mesa, mordeu os lábios enquanto baixava os olhos. Enquanto bordava, exibia pontos frouxos e desleixados. As figuras ficavam tortas. Embora refizesse o trabalho, não acertava o ponto certo que despertara em outras épocas a admiração das freguesas.

Por fim, abandonou o serviço pela metade. Era um girassol incompleto, exibia pétalas frouxas e fios amarelos que se perdiam no tecido branco.  Ela se deitava em sua cama suspirando e contendo com esforço as lágrimas que teimavam em lhe umedecer os olhos.

Os vizinhos achavam-na mais magra a cada dia. Cochichavam entre si, especulando alguma doença grave que parecia estar consumindo sua vida. Outros, compadecidos do seu estado, insistiam que procurasse um médico e se tratasse. Ela seguiu o conselho dos vizinhos e procurou um médico, que lhe recomendou repouso e prescreveu-lhe um remédio, sem dizer ao certo o que ela tinha.

Certo dia, Cidália olhou-se no espelho do banheiro enquanto abria o frasco de comprimidos indicado pelo médico e viu seu reflexo. As maçãs do rosto proeminentes, olheiras fundas e cabelos desalinhados. Pegou um comprimido do frasco que já estava pela metade e engoliu junto com um gole de água. Entrou no quarto e jogou-se na cama, suspirando, com o olhar fixo em algum ponto invisível no teto.

O almoço esfriava no prato, intocado. À noite, ela deu no máximo uma ou duas garfadas no jantar e demorou a conciliar o sono. Seu aparelho celular tocou e zumbiu inúmeras vezes sem que ela levantasse da cama para atendê-lo. Enfim, parou de tocar. Isso se repetiu dias a fio, até que parou de tocar de vez e a agulha de bordar não mais saiu do estojo. E assim passavam-se os dias na casa de Cidália. Até que veio-lhe à memória o brinquedo e o dia em que o dera a seu filho. Era um robozinho de cordas que andava, fazia barulho e piscava luzes. Cidália fechou os olhos apertando-os para represar a lágrima que insistia em cair, até que adormeceu. O sono veio pesado, mas logo foi interrompido por sons que a memória guardara no fundo do peito: apitos ritmados e o zunido mecânico das engrenagens. Abriu os olhos e, ao sentar-se na cama, viu o menino. Ele segurava o robozinho, que agora brilhava com luzes vivas e marchava sem mancar.  O menino sorriu, chamando-a:

? Mãe. Vem comigo. Quero te mostrar um lugar ? disse o menino, puxando-a pela mão.

O apartamento dissolveu-se como poeira ao vento. O sol a pino dourava um campo infinito. O girassol que ela tentara bordar em vão estava ali, vivo, multiplicado por milhares, balançando sob o céu de um azul celeste, sem nuvens. O garoto corria, puxando-lhe pelas mãos, sem sequer lhe dar tempo para se refazer do espanto que aquela aparição repentina lhe causava.

O menino corria por entre as flores, rindo, embrenhando-se naquele vasto campo, o brinquedo intacto nas mãos, piscando luzes e fazendo barulhos ritmados, enquanto a chamava. Ela correu atrás dele a fim de alcançá-lo na carreira. Como antes, dava risadas enquanto brincavam. Abraçou seu filho e ergueu-o em seus braços, cobriu-o de beijos em meio àquele vasto jardim. Os dois caminharam por entre aquele campo de girassóis que parecia não ter fim.

Os vizinhos, sem terem notícias dela há dias, acionaram o corpo de bombeiros, cujos agentes arrombaram o apartamento de Cidália e encontraram-na deitada em sua cama, com as faces lívidas, olhos fechados, mãos cruzadas sobre o peito e um sorriso estampado nos lábios. O antigo bastidor já não exibia fios soltos: o girassol estava terminado com pontos de uma perfeição impossível.

 

Jorge Pedro Almeida Lima

Meu nome é Jorge Almeida, residente no Rio de Janeiro capital e formado em Engenharia Civil. Trabalho há 17 anos como Engenheiro Civil na área de Gestão de Projetos para obras de infraestrutura  e saneamento básico para áreas carentes do município do Rio de Janeiro. Leitor voraz de romances e literatura clássica, descobri na Escrita Criativa um novo prazer.