No primeiro dia da viagem, a energia acabou.
Era início da noite, e a casa — ainda pouco conhecida — mergulhou em uma escuridão mais densa.
Por um instante, pensei em procurar lanternas, resolver, retomar o controle da situação. Mas não
havia muito o que fazer.
Acendi uma vela. Sem controlar o ambiente, algo muda. As escolhas diminuem, o corpo pede
atenção — o tato, o olfato, a respiração ganham espaço.
Perceber os sentidos com presença talvez também seja uma forma de dar sentido à vida. A vida
acontece em instantes — e é neles que a grandiosidade do sentir se revela.
No início, há estranhamento. A escuridão parece maior do que é. Os olhos insistem em piscar
mais rápido, como se quisessem ampliar à força o campo de visão. É quase automático: tentar
controlar o que se vê.
Mas, aos poucos, algo muda. A visão deixa de ser protagonista e dá lugar ao olfato — ao cheiro
suave da vela queimando. E é curioso perceber que, quando o foco se desloca, a própria visão se
amplia. Não porque a luz aumentou, mas porque a presença mudou.
A vela iluminou mais...ou foi o sentir que abriu espaço para a luz?
O ambiente se transforma. A luz amarela acolhe, acalma, envolve. Não invade: convida. E então
surge outra pergunta: é a luz da vela que dá sentido ao instante ou é a presença que revela a luz
que já estava ali?
O tempo passa diferente quando não há energia. A chama diminui. Percebo, sem precisar olhar
diretamente, que ela está chegando ao fim.
Por um instante, penso em acender outra. Prolongar a luz. Evitar o escuro. Mas não faço. Fico.
A vela, agora menor, parece mais presente. Como se queimasse com mais intensidade
justamente por saber que duraria pouco.
Até que apaga. O escuro volta, mas não da mesma forma. Algo mudou.
Talvez a vida funcione assim. Nem tudo precisa durar mais para fazer sentido.
Às vezes, basta iluminar o instante o suficiente.
Lorena Araújo de Oliveira
Algumas pessoas escrevem para explicar o mundo. Eu escrevo para escutá-lo.
Sempre tive a impressão de que a vida fala — mas fala baixo. Ela se manifesta em pequenos encontros, coincidências discretas, caminhos que parecem se abrir exatamente quando aprendemos a prestar atenção.
Demorei algum tempo para entender que não se trata de controlar o destino. Trata-se de caminhar com ele.
Essas crônicas nasceram assim: da tentativa de escutar melhor os sinais que atravessam os dias comuns.
Não são respostas. São apenas fragmentos de uma conversa silenciosa entre uma mulher e o universo.
Se, ao lê-las, você também se lembrar de algum sinal que a vida já lhe enviou, então esta conversa terá encontrado mais uma voz.