Ontem, ao me deitar, veio à minha mente a comparação da vida com o mar. As imagens do movimento das ondas e o som constante da água me conduziram ao sono, e, mesmo adormecida, o movimento do mar permaneceu ao longo de toda a noite.
As ondas, em qualquer lugar do mundo, suaves ou intensas - em praias frias ou quentes, - estão sempre em movimento. O mar, esteja agitado ou calmo, não para. Neste exato instante, há movimento em todos os mares do mundo.
A partir dessa imersão, comecei a perceber que a vida se assemelha a esse contínuo movimento. Assim como o mar, também nos movemos: às vezes com mais intensidade, outras com suavidade. Há momentos em que a vida nos envolve de forma calorosa, como uma onda que acolhe, quase um abraço, e nos convida a permanecer ali, apenas sentindo o balanço e contemplando a imensidão do horizonte. Em outros momentos, porém, os movimentos são mais frios, mais discretos, quase imperceptíveis e nos convida apenas a silenciar.
O mar, de certa forma, nos ensina a viver. A maré carrega uma sabedoria silenciosa e um barulhinho bom de escutar. O mar existe antes de nós e não se apressa - ele simplesmente vive. Há dias de tempestade, e ele vive. Há dias ensolarados, e ele vive. Há noites escuras e turbulentas, e ele vive. Já nós, diante das tempestades e trovões, muitas vezes apenas sobrevivemos.
Foi então que associei esse movimento às rotas da vida. Em muitos momentos, ao nos movermos, mudamos de direção; em outros, é justamente a mudança de rota que nos coloca em movimento. E o mar? As ondas nunca são as mesmas dentro daquele mesmo imenso corpo d'água. A base de areia permanece ou também se transforma, sendo redirecionada a cada novo movimento?
Passei a imaginar a vida como esse fluxo constante. Assim como as ondas variam em força e ritmo, nós também nos transformamos. A base pode até parecer a mesma sob nossos pés, mas quem está em movimento sabe: a areia já não é exatamente a mesma.
Lorena Araújo de Oliveira
Algumas pessoas escrevem para explicar o mundo. Eu escrevo para escutá-lo.
Sempre tive a impressão de que a vida fala — mas fala baixo. Ela se manifesta em pequenos encontros, coincidências discretas, caminhos que parecem se abrir exatamente quando aprendemos a prestar atenção.
Demorei algum tempo para entender que não se trata de controlar o destino. Trata-se de caminhar com ele.
Essas crônicas nasceram assim: da tentativa de escutar melhor os sinais que atravessam os dias comuns.
Não são respostas. São apenas fragmentos de uma conversa silenciosa entre uma mulher e o universo.
Se, ao lê-las, você também se lembrar de algum sinal que a vida já lhe enviou, então esta conversa terá encontrado mais uma voz.