— Cansei.
— De quê?
— De lutar.
— Lutar? Não entendi.
— Sim. Lutar. Tudo é luta.
— Mas tudo o quê?
— Desisto.
Silêncio.
— Que desânimo é esse? Não consigo entender.
— Nunca quis...
— Você me machuca desse jeito.
— Eu te machuco?
— Não percebe?
— Perceber o quê?
— Fala na minha cara.
— O quê?
— O que você pensa. Se for homem.
— Não entendi o que você quer de mim.
— É isso. Você nunca entende.
O filho olha, mas não responde.
— Você não se importa.
— Não me importo?
— Olha o que você faz comigo.
— Eu faço o quê?
— Me abandona.
O filho solta o ar devagar.
— Eu estou aqui.
O pai desvia o olhar.
— Não está.
— Estou.
— Não como deveria.
Silêncio.
— Tem raiva de mim.
— Raiva?
— Eu vejo.
— Não.
— Olha pra você.
— Estou olhando.
Pausa.
— Está vendo agora?
— Estou.
— Não sou eu quem te machuca.
— Então quem é?
O filho sustenta o olhar.
— Eu também cansei.
— Agora você cansou?
— Não.
— Eu sempre estive cansado.
Silêncio.
— E você nunca escutou.
Lorena Araújo de Oliveira
Algumas pessoas escrevem para explicar o mundo. Eu escrevo para escutá-lo.
Sempre tive a impressão de que a vida fala — mas fala baixo. Ela se manifesta em pequenos encontros, coincidências discretas, caminhos que parecem se abrir exatamente quando aprendemos a prestar atenção.
Demorei algum tempo para entender que não se trata de controlar o destino. Trata-se de caminhar com ele.
Essas crônicas nasceram assim: da tentativa de escutar melhor os sinais que atravessam os dias comuns.
Não são respostas. São apenas fragmentos de uma conversa silenciosa entre uma mulher e o universo.
Se, ao lê-las, você também se lembrar de algum sinal que a vida já lhe enviou, então esta conversa terá encontrado mais uma voz.