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Entre o que sinto e o que digo

Entre o que sinto e o que digo

por Lorena Araújo

Entre o que sinto e o que digo

As relações humanas são, em grande medida, espaços de revelação. Ao nos relacionarmos, não conhecemos apenas o outro - conhecemos também a nós mesmos.

Durante muito tempo, acreditei que compreender o outro era o principal objetivo das relações. Com o tempo, porém, passei a perceber que existe um movimento anterior: compreender a si. Perguntas simples começaram a surgir com mais frequência: o que sinto? O que preciso? O que, muitas vezes, deixo de dizer?

Grande parte dos conflitos nasce quando o foco se desloca para aquilo que falta no outro. Quando isso acontece, a comunicação se torna confronto. A fala deixa de ser expressão e passa a ser cobrança.

Por outro lado, quando a comunicação parte das próprias necessidades, algo se transforma. A palavra deixa de acusar e começa a construir. Surge, então, a possibilidade de uma ponte.

Comunicar, nesse sentido, exige mais do que palavras. Exige responsabilidade sobre o próprio sentir e coragem para expressá-lo. O silêncio prolongado pode erguer muros, mas a palavra, quando utilizada com consciência, tem a capacidade de atravessá-los.

Talvez comunicar não seja sobre convencer, mas sobre permitir encontros. Entre o que sinto e o que digo existe um caminho.

Lorena Araújo de Oliveira

Lorena Araújo

Sou escritora, procuradora federal, mestra em gestão e políticas públicas pela USP e professora da ENAP. Minha escrita reúne ficção e questões relacionadas às vivências das mulheres, às relações de gênero, e às formas como aprendemos a pertencer ao mundo.

Escrevo especialmente sobre mulheres: sobre as formas como aprendemos a ser, viver, desejar, cuidar, permanecer, sustentar, partir e pertencer. Sobre aquilo que nos é ensinado como natural. E sobre o momento em que começamos a perceber que podemos aprender de outro modo.

Minha escrita nasce dessa observação.

Às vezes, ela se torna crônica. Em outras, conto ou romance. A forma muda, mas a pergunta permanece: o que existe por trás daquilo que aprendemos a considerar normal?

Acredito que a literatura começa nesse instante: quando percebemos que também podemos aprender de outro modo, desconstruindo aquilo que nos foi dado como natural.