por Lorena Araújo
Ontem, ao me deitar, veio à minha mente a comparação da vida com o mar. As imagens do movimento das ondas e o som constante da água me conduziram ao sono, e, mesmo adormecida, o movimento do mar permaneceu ao longo de toda a noite.
As ondas, em qualquer lugar do mundo, suaves ou intensas - em praias frias ou quentes, - estão sempre em movimento. O mar, esteja agitado ou calmo, não para. Neste exato instante, há movimento em todos os mares do mundo.
A partir dessa imersão, comecei a perceber que a vida se assemelha a esse contínuo movimento. Assim como o mar, também nos movemos: às vezes com mais intensidade, outras com suavidade. Há momentos em que a vida nos envolve de forma calorosa, como uma onda que acolhe, quase um abraço, e nos convida a permanecer ali, apenas sentindo o balanço e contemplando a imensidão do horizonte. Em outros momentos, porém, os movimentos são mais frios, mais discretos, quase imperceptíveis e nos convida apenas a silenciar.
O mar, de certa forma, nos ensina a viver. A maré carrega uma sabedoria silenciosa e um barulhinho bom de escutar. O mar existe antes de nós e não se apressa - ele simplesmente vive. Há dias de tempestade, e ele vive. Há dias ensolarados, e ele vive. Há noites escuras e turbulentas, e ele vive. Já nós, diante das tempestades e trovões, muitas vezes apenas sobrevivemos.
Foi então que associei esse movimento às rotas da vida. Em muitos momentos, ao nos movermos, mudamos de direção; em outros, é justamente a mudança de rota que nos coloca em movimento. E o mar? As ondas nunca são as mesmas dentro daquele mesmo imenso corpo d'água. A base de areia permanece ou também se transforma, sendo redirecionada a cada novo movimento?
Passei a imaginar a vida como esse fluxo constante. Assim como as ondas variam em força e ritmo, nós também nos transformamos. A base pode até parecer a mesma sob nossos pés, mas quem está em movimento sabe: a areia já não é exatamente a mesma.
Lorena Araújo de Oliveira
Sou escritora, procuradora federal, mestra em gestão e políticas públicas pela USP e professora da ENAP. Minha escrita reúne ficção e questões relacionadas às vivências das mulheres, às relações de gênero, e às formas como aprendemos a pertencer ao mundo.
Escrevo especialmente sobre mulheres: sobre as formas como aprendemos a ser, viver, desejar, cuidar, permanecer, sustentar, partir e pertencer. Sobre aquilo que nos é ensinado como natural. E sobre o momento em que começamos a perceber que podemos aprender de outro modo.
Minha escrita nasce dessa observação.
Às vezes, ela se torna crônica. Em outras, conto ou romance. A forma muda, mas a pergunta permanece: o que existe por trás daquilo que aprendemos a considerar normal?
Acredito que a literatura começa nesse instante: quando percebemos que também podemos aprender de outro modo, desconstruindo aquilo que nos foi dado como natural.