por Lorena Araújo
Outro dia, ouvi de uma mulher da minha família:
— Hoje, ninguém honra mais pai e mãe.
Ela dizia isso olhando para as netas. Os homens, curiosamente, não estavam incluídos naquela frase.
Ninguém respondeu, mas algo ficou. Fiquei pensando no que significa honrar: se é permanecer, se é repetir, se é não sair do lugar onde nos colocaram.
Em muitas famílias, existe um acordo silencioso: as mulheres cuidam, permanecem, sustentam e os homens seguem. Quando uma mulher decide não permanecer... algo se rompe. Não necessariamente um vínculo, mas uma expectativa.
Porque mudar desloca e deslocar pede que o outro também se mova. Nem todo mundo quer, nem todo mundo consegue.
Há famílias que se apresentam como união, mas se sustentam em silêncio: pequenos comentários, olhares atravessados, histórias contadas pela metade. Por dentro, tensão. Por fora, devoção. E então me pergunto: honrar é repetir? Ou é fazer diferente?
Talvez honrar não seja permanecer no mesmo lugar, talvez seja interromper aquilo que não pode mais continuar. Nem sempre com confronto, às vezes, com distância. Nem sempre com ruptura visível, às vezes, com um limite silencioso.
Porque crescer, às vezes, exige isso: deixar de caber onde sempre coubemos. E aceitar que, para alguns, isso nunca vai parecer honra.
Algumas heranças não pedem continuidade: pedem coragem.
Lorena Araújo de Oliveira
Sou escritora, procuradora federal, mestra em gestão e políticas públicas pela USP e professora da ENAP. Minha escrita reúne ficção e questões relacionadas às vivências das mulheres, às relações de gênero, e às formas como aprendemos a pertencer ao mundo.
Escrevo especialmente sobre mulheres: sobre as formas como aprendemos a ser, viver, desejar, cuidar, permanecer, sustentar, partir e pertencer. Sobre aquilo que nos é ensinado como natural. E sobre o momento em que começamos a perceber que podemos aprender de outro modo.
Minha escrita nasce dessa observação.
Às vezes, ela se torna crônica. Em outras, conto ou romance. A forma muda, mas a pergunta permanece: o que existe por trás daquilo que aprendemos a considerar normal?
Acredito que a literatura começa nesse instante: quando percebemos que também podemos aprender de outro modo, desconstruindo aquilo que nos foi dado como natural.