por Lorena Araújo
— Cansei.
— De quê?
— De lutar.
— Lutar? Não entendi.
— Sim. Lutar. Tudo é luta.
— Mas tudo o quê?
— Desisto.
Silêncio.
— Que desânimo é esse? Não consigo entender.
— Nunca quis...
— Você me machuca desse jeito.
— Eu te machuco?
— Não percebe?
— Perceber o quê?
— Fala na minha cara.
— O quê?
— O que você pensa. Se for homem.
— Não entendi o que você quer de mim.
— É isso. Você nunca entende.
O filho olha, mas não responde.
— Você não se importa.
— Não me importo?
— Olha o que você faz comigo.
— Eu faço o quê?
— Me abandona.
O filho solta o ar devagar.
— Eu estou aqui.
O pai desvia o olhar.
— Não está.
— Estou.
— Não como deveria.
Silêncio.
— Tem raiva de mim.
— Raiva?
— Eu vejo.
— Não.
— Olha pra você.
— Estou olhando.
Pausa.
— Está vendo agora?
— Estou.
— Não sou eu quem te machuca.
— Então quem é?
O filho sustenta o olhar.
— Eu também cansei.
— Agora você cansou?
— Não.
— Eu sempre estive cansado.
Silêncio.
— E você nunca escutou.
Lorena Araújo de Oliveira
Sou escritora, procuradora federal, mestra em gestão e políticas públicas pela USP e professora da ENAP. Minha escrita reúne ficção e questões relacionadas às vivências das mulheres, às relações de gênero, e às formas como aprendemos a pertencer ao mundo.
Escrevo especialmente sobre mulheres: sobre as formas como aprendemos a ser, viver, desejar, cuidar, permanecer, sustentar, partir e pertencer. Sobre aquilo que nos é ensinado como natural. E sobre o momento em que começamos a perceber que podemos aprender de outro modo.
Minha escrita nasce dessa observação.
Às vezes, ela se torna crônica. Em outras, conto ou romance. A forma muda, mas a pergunta permanece: o que existe por trás daquilo que aprendemos a considerar normal?
Acredito que a literatura começa nesse instante: quando percebemos que também podemos aprender de outro modo, desconstruindo aquilo que nos foi dado como natural.