×

A árvore genealógica

A árvore genealógica

por Luci Lima

A árvore genealógica

"Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes o são cada uma à sua maneira." — Léon Tolstói

 

Cilene nunca mais tinha pensado na família biológica até ser obrigada a ajudar o filho a preencher a árvore genealógica dele. A atividade era para o Dia da Família.

Já fazia algum tempo que a escola do filho não comemorava o Dia das Mães ou dos Pais. As comemorações, ainda que bem-intencionadas, pareciam causar mais mal do que bem, quando os homenageados não podiam ou queriam comparecer à escola no seu dia. Família era mais neutro e abrangente. Cabe avó, tio, primo, cachorro, gato, peixe dourado.

Sentado num cadeirão na cozinha, Arthur coloria a página que iria conter os nomes de um bando de estranhos.

Ainda descontente com a tarefa impingida pela escola, ela foi terminar o jantar. O aroma de alecrim das batatas e do louro que perfumava o feijão a relaxava até nos dias mais estressantes.

Mal se lembrava de sua mãe na cozinha. Em sua fase de dona de casa, ela ora queimava o arroz, ora o feijão.

Cilene só aprendeu a comer legumes depois que saiu de casa. Para ela, cozinhar para o filho era um ato de amor e se esforçava para aprender o que nunca lhe fora ensinado.

Aos três anos, o filho já manifestava suas preferências, e ela fazia o possível para apresentar a comida de maneiras diferentes para que ele aprendesse a comer de tudo.

— Mãe, não quero o verdinho.

— Come só um bocadinho. Vai, prova. O verdinho vai te ajudar a crescer alto e forte, que nem o He-Man.

Com a testa franzida, o garoto olhou para a mãe e para o prato. Com a destreza da idade, espetou a arvorezinha de brócolis e a levou à boca, enquanto o franzido se estendia até o nariz. Mastigou uma vez e cuspiu de volta no prato.

— Acho que não quero ficar alto, mamãe.

Cilene já não escutava. Encolhida, lembrou-se do safanão. Que idade ela tinha? Não mais que cinco. Come sua filha da puta! Tem criança passando fome e você cuspindo no prato. Eu fico ralando o cu o dia inteiro pra isso? O pai pegou a filha pela orelha e esfregou a cara dela na comida cuspida.

— Mãe?

Ela olhou para o prato do filho. Ele tinha deixado os verdinhos, mas comido todo o resto.

— Quer gelatina, meu bem?

 

Arthur dormia, e a lição de casa da mãe continuava por fazer. Cilene fez um chá e levou o desenho para a sala.

O gato pulou no sofá gasto e se aconchegou em seu colo enquanto ela olhava, concentrada, para um ponto de sujeira no vidro da janela.

Acariciou Chico. Um vira-latas como ela. Ele tinha aparecido no quintal, todo machucado. Fora antes de Arthur. Ela deixara boa parte das economias no veterinário.

Suspirou e começou a escrever. Vou de quadradinho em quadradinho, pensou.

Família do Arthur

Avó: Cida.

Tinha renascido quando Dona Cida a acolheu depois da surra que Cilene levara do pai. A própria mãe, paralisada pelo torpor da bebida, não se opôs enquanto ele esmurrava a filha. A avó, mãe do pai, pedia a ela que se arrependesse por tê-lo ofendido. E depois, a rua escura, só com a roupa do corpo.

Morou com Dona Cida até terminar o colégio noturno. Ela era uma alma boa, ainda que meio seca. Pena já ter morrido.

Avô: Desconhecido

Ela não era filha daquele animal, não mesmo!

Tios e Tias: Nenhum

O irmão virara a cara para ela depois da surra. Não que fosse grande perda. Ele copiava o pai; era um valentão e a fazia de empregada dele. A irmã mais nova até tinha ido procurá-la no dia seguinte e, olhando nos olhos de Cilene, um deles roxo-esverdeado, implorou que fosse pedir desculpas ao pai.

Pai: Olavo Bilac

Foi num hotelzinho na Rua Olavo Bilac que Arthur fora concebido. O namorado, amor de sua vida, jurara fidelidade a Cilene, mas, quando ela estava com cinco meses de gestação, descobriu que ele engravidara outra moça.

Irmão: Chico

 

Na escola, no dia da comemoração, Cilene levava Arthur pela mão. Chico preferiu ficar em casa. Depois das apresentações das crianças, famílias de todas as cores e formas vagavam pelas salas de aula, puxadas por seus pequenos.

Arthur a levou até a parede das árvores. Era o desenho de uma árvore com ramos longos, em que cada aluno e sua árvore eram os frutos.  Orgulhoso, mostrou a parte onde a desenhara com cabelos longos e negros e o irmão de quatro patas, que mais parecia uma vaca malhada.

Ao admirar as árvores expostas na sala do filho, pôde perceber que a de Arthur não era única.

Luci Lima

Luci Lima é tradutora e escritora brasileira. Após anos trabalhando com textos de outros autores, decidiu que também queria contar suas próprias histórias. Escreve romances, histórias policiais e contos.

Acredita que uma boa história não precisa ser necessariamente impressa e aprecia as novas formas de leitura proporcionadas pela tecnologia.

Fã de Jane Austen, escreveu Em Busca do Destino, uma variação de Orgulho e Preconceito, publicada na Amazon.com.br sob o pseudônimo Lilly Ames.

Quando não está escrevendo, vive cercada de gatos, ideias e personagens que insistem em aparecer.