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Você fala inglês?

Você fala inglês?

Você fala inglês?

O telefone da mesa tocava sem parar. Remi se amaldiçoou por não ter saído para almoçar.

— Alô?

— Você fala inglês, né? Fala com esse cara. — E a telefonista transferiu a ligação.

— Alô, não, yes?

Ela começou a suar frio quando ouviu sons pouco familiares.

Nada no mundo explica por que as pessoas assumem que, quando alguém diz que fala inglês, esse alguém é capaz de conversar com um cidadão da Libéria ou da Austrália, com a mesma desenvoltura com que pratica na aula de línguas.

— I don't understand. Could you talk slower, please?

Após alguns instantes, seu interlocutor informou que desejava falar com o Sr. Bernardo, diretor comercial da empresa.

Mais aliviada, voltou a falar com a telefonista.

— Ele não está — disse ela. — Pega recado.

O calor subiu ao rosto de Remi, que, esperando estar usando a concordância verbal correta, gaguejou a situação ao cliente potencial.

A humilhação final foi anotar o número de telefone.

Por um instante, ela ficou besta. Nem português entendia mais. Conhecia os números de 0 a 9 em inglês desde a quinta série, mas nem um milagre a faria anotar aquela sequência.

Depois de pedir para repetir três vezes, teve vergonha e anotou qualquer coisa.

Pôs o telefone no gancho e levou suas anotações à telefonista.

— Tudo certo?

— A ligação estava meio falhada.

Despediu-se e saiu de fininho.

Com um pouco de sorte, o retorno da ligação não cairia na Casa Branca.

Luci Lima

Luci Lima é tradutora e escritora brasileira. Após anos trabalhando com textos de outros autores, decidiu que também queria contar suas próprias histórias. Escreve romances, histórias policiais e contos.

Acredita que uma boa história não precisa ser necessariamente impressa e aprecia as novas formas de leitura proporcionadas pela tecnologia.

Fã de Jane Austen, escreveu Em Busca do Destino, uma variação de Orgulho e Preconceito, publicada na Amazon.com.br sob o pseudônimo Lilly Ames.

Quando não está escrevendo, vive cercada de gatos, ideias e personagens que insistem em aparecer.