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Auguro

Auguro

Auguro

       Marcara a consulta para às 13 horas. Quando chegou no local estava quase deserto e não havia uma recepcionista. Lembrou que quase desistira de ir a clínica, chegou a pegar o telefone para cancelar. Percebeu que haviam concluído a reforma no lugar. Estava mais funcional e simples. Cadeiras feitas com um material inferior se comparadas com as anteriores estofadas. Essas de plástico tinham uma aparência de desproteção, falta de recursos estéticos ou qualquer projeto mais elaborado.

      Pensou em desistir porque lembrou que seu médico estava deprimido e pensou que um evento simples não valeria uma visita a um especialista. O que pesou foi a promessa que tinha feito a si mesma de se priorizar.

     Quando entrou na sala do ginecologista ele não lembrou de já ter atendido ela e como não estava com o seu histórico em mãos a consulta foi se encaminhando com as perguntas feitas em qualquer triagem médica. Tudo mudou de rumo quando Fernanda informou que era paciente de outro médico da clinica que havia falecido. E tal qual ela já antevira em casa, os papéis na interlocução sofreram deslocamento. Ela passou a escutar a história familiar e de amizade do médico que falecera com aquele que a atendia. Naquela mesma semana ele estaria aniversariando dissera o outro inconsolável. Mesmo que ela não tivesse tido tempo de ser uma paciente antiga, fora aquele médico  que acabara com o seu problema de saúde através de cirurgia. Ouvir fatos sobre o tipo de família da qual se originara e o tipo de estudante e profissional que fora, carismático e divertido, características que faltavam ao seu sócio, segundo ele mesmo, sentado na frente de Fernanda, foi ficando pesado e constrangedor. Ocupar o lugar de terapeuta exige preparo, estrutura psicológica mais imparcial do que a sua que começava a ceder. Suas tentativas de fazê-lo olhar algum aspecto menos negativo de tudo aquilo, através de algum comentário espirituoso, quando falou da própria infância, fizeram com que se entusiasmasse a se aprofundar um pouco mais no rol de suas perdas.

     No lugar pouco iluminado pela luz do dia, começou a faltar ar. Fernanda fez menção de se levantar. Ele se encaminhou a porta e estendeu a mão, ela retribuiu, desejando boa sorte, tendo a sensação de que aquele cumprimento ou auguro não servia para nada. Em poucos dias teriam um novo encontro para verem o resultado do exame solicitado. Ela esperava que ele resistisse.

Magda Rodrigues de Souza

Magda Rodrigues de Souza nasceu em Porto Alegre. É formada em história pela PUC/RS. Participou de oficina literária do programa de pós-graduação em letras na mesma instituição e do curso de formação de escritores da Metamorfose. Fez parte de coletâneas de contos. Publicou a novela infantojuvenil Irados naTábua em 2017 e os livros de contos Formas de Existir em 2021 e Lá Todos Continuavam Vivos em 2023.