Os juncus se proliferavam em toda a margem do rio. Ao desembarcar da canoa Silvano teria acesso à floresta. Não planejara estar ali e agora entendia que errara ao sair sozinho navegando por um lugar que não conhecia. Estava distante de onde saíra, o embarcadouro ficava nos fundos do hotel no qual se hospedara, alguém dissera que seria bom que esperasse pelo guia turístico, responsável pelo passeio que seria feito num barco maior com um grupo. Não conseguia mais enxergar o trapiche. Depois que perdeu os remos, ficou à deriva no meio da movimentação das águas, provocada pela mudança de direção do vento, que o afastava cada vez mais do ponto de partida. Por sorte, conseguiu aproximar-se da margem e das plantas altas. Foi se enfiando no meio delas, que dificultavam a passagem da canoa, felizmente, algo impedia o avanço em direção à queda do rio.
Assim que pisou na terra, ficou satisfeito consigo mesmo e com a sorte. Em poucas horas iriam encontrá-lo e tudo não passaria de um episódio que não contaria para muitos. Não admitiria ter sido tão imprudente. Aos colegas de trabalho que sempre comentavam sobre sua eficiência, responsável pela sua promoção a chefe de setor, que não deixava escapar um detalhe na elaboração de documentos e gestão de arquivos confidenciais do laboratório. Depois que tirou a embarcação da água, enfiou a mão no bolso da calça, antes de sentar no banco dentro dela. O telefone havia ficado em cima da cama do quarto do hotel. Deixou lá quando desistiu de ir de bermudas e optou pela calça tactel. Resolveu trocar porque o dia amanhecera nublado, mesmo com previsão meteorológica de dia ensolarado, e tudo indicava que haveria precipitação em pouco tempo.
No hotel os hospedes que iriam no passeio de barco, desceram para o café e a maioria retornou ao quarto depois de receberem o alerta de tempestade nos telefones. O gerente teve o cuidado de colocar um cartaz na recepção com o aviso. Depois relembrou os funcionários do procedimento padrão em caso de corte de energia elétrica e internet. Tratava-se de um estabelecimento de médio porte, construído quando a cidade começou a desenvolver sua infraestrutura dedicada ao turismo em função do balneário. Era uma construção digna, feita no inicio do século XX. Com fachada ornamentada por esculturas, arcos e sacadas, demonstrando estilo eclético, diriam arquitetos e entendidos.
Quando os hospedes desceram para o salão de refeições para o almoço Flora percebeu que não tinha visto ainda o homem que se inscrevera no mesmo passeio de barco que ela. Silvano era dessas pessoas previsíveis, de comportamento cauteloso. Vestia-se com roupas básicas e formais. Calça de alfaiataria, camisa social e mocassin, num lugar em que muitos já haviam despidos os pés dos sapatos fechados e desfilavam de bermudas e shorts. Mas ela se identificava com a resistência dele em se desfazer das vestimentas de trabalho. Por baixo do vestido de linho verde claro, colocara uma calçola modeladora, nem tanto pelo efeito, mais para evitar a transparência. Não conseguia achar natural colocar uma roupa que funcionava como uma espécie de raio x ou outras em que se destacava aquilo que foi vestido por baixo. Lembrava do nome dele, porque fizera a reserva antes dela, mesmo que insistisse para que ela fizesse antes da dele, Flora não aceitou. Pegaram o mesmo elevador. Ela ficou no andar anterior ao de Silvano. Antes de sair, disse um até amanhã.
Silvano não tinha ideia de quanto tempo havia passado. Tinha certeza de que uma tempestade se aproximava. Teria que entrar no mato em busca de um abrigo mais eficiente do que um barco em cima da cabeça. A água poderia invadir a margem. Precisava sair dali. Foi caminhando devagar carregando o barco. Viu que havia um caminho em direção as árvores. Pensou em ficar embaixo de uma delas e improvisar um telhado com a embarcação se a chuva ficasse muito forte. Assim fez. Elas eram muito antigas e próximas uma das outras. Sentiu-se protegido. Viu o quanto a tempestade foi forte mais pelas ondas formadas no rio e no jogo dos barcos que tentavam locomoverem-se nas águas agitadas do que no balanço dos galhos daqueles seres gigantescos. Depois que tudo se acalmou, o ar ficou gelado na noite que se estabeleceu de forma muito rápida. Silvano viu que havia uma parte oca, um buraco no tronco da árvore, tão grande que poderia caber ali. Entrou, sentia que havia mais espaço no fundo, mas não conseguia ver. Estava seco e aconchegante. Não se importaria de dividir o espaço com mais algum outro ser que ali morasse, esperava que ele pensasse da mesma forma. Percebeu que já estava pensando de forma estranha, deveria ser a fome. Dormiu encolhido, quando amanheceu viu que ficara bem no centro daquela espécie de útero. Não havia mais ninguém ali, nenhum bicho, tentou escutar passarinhos ou alguma outra manifestação de vida, só um zumbido. Saiu do buraco e ouviu vários sons de muitas manifestações da vida. O nicho seria um lugar com isolamento acústico? Quando acordou viu que crescera em volta dele, entrelaçando-o, algumas raízes, que o abrigaram durante a noite. Arrancou com certa dificuldade, aquelas que prendiam o seu corpo à terra macia. Saiu para explorar o lugar e talvez encontrar algumas frutas. Percebeu que não tinha fome. Sentia-se nutrido e disposto.
O dia estava ensolarado e bastante quente, Silvano levou a embarcação para a margem do rio com a intenção de tentar seguir, mas não sabia para onde ir e se o vento ajudaria. Certamente no hotel já haviam dado por falta dele e teriam iniciado as buscas.
Flora avisou ao gerente do hotel sobre o ocorrido, assim que não viu Silvano no café da manhã. O homem fez contato com o quarto do hospede que não atendeu ao telefone, imediatamente foi até o quarto e bateu na porta e não houve resposta. Usaram a chave reserva e assim que entraram no recinto viram o telefone celular em cima da cama feita. Foram até o embarcadouro atrás de alguém que tivesse visto um homem, pois não tinham uma descrição de Silvano, só algumas impressões de Flora que acompanhava a diligência. O bilheteiro da empresa responsável pelos passeios de barco, tinha visto quando ele pegou a canoa abandonada no ancoradouro há alguns meses. Dissera se poderia dar uma pequena volta. O bilheteiro aconselhara esperar o guia turístico. "E para que lado ele havia ido?" "Como saber, deve ter seguido pela margem." "Porque você não impediu?"— quis saber o gerente. " Lá eu sou homem de me meter com hóspede do hotel?" "Nem quando começou a tempestade? Poderia ter avisado." " Achei que tivesse retornado."
As buscas começaram antes do meio dia e tudo indicava que poderiam levar dias, principalmente, porque toda aquela área era desabitada.
Silvano passara o dia sentado dentro do barco na orla do rio, não tivera coragem de colocá-lo na água. Poderia tentar voltar indo pela margem, no meio do juncos, seguindo na direção em que viera, mas ficou com medo de perder o controle, já que não tinha remos. Não encontrara algo que pudesse transformar em pás, galhos ou folhas duras não funcionariam. Mesmo tendo ficado no sol não sentira sede. Estava achando muito estranha a sua condição de náufrago. A noite surgira estrelada, ficou um bom tempo admirando o céu, sentado num dos galhos da sua árvore. Entrou no compartimento e antes de dormir viu pela abertura que animais de médio porte passavam por ali atrás de caça, sentiu-se seguro, não entrariam ali. Aproximou-se de uma das paredes e aconchegou-se. Acordou preso por raízes mais fortes e a dificuldade para se libertar foi maior. Depois que saiu para fora dela, sentiu que não tinha qualquer necessidade: fome, sede, carências, frustração por estar perdido e longe de todos, pessoas estranhas, colegas de trabalho, parentes distantes.
Naquela noite ficara durante muito tempo sentado no galho da sua árvore, não sabia quanto. Depois que entrou nela, viu alguns animais selvagens e ouviu até passos que pareciam humanos, haveria caçadores ali ou seu resgate chegara? Procurou um canto que não havia experimentado e adormeceu. De manhã partes do seu corpo tinham sido atravessados pelas raízes, agora fazia parte do tecido daquele ser imponente e generoso.
Magda Rodrigues de Souza nasceu em Porto Alegre. É formada em história pela PUC/RS. Participou de oficina literária do programa de pós-graduação em letras na mesma instituição e do curso de formação de escritores da Metamorfose. Fez parte de coletâneas de contos. Publicou a novela infantojuvenil Irados naTábua em 2017 e os livros de contos Formas de Existir em 2021 e Lá Todos Continuavam Vivos em 2023.