por Antonio Lima Jr.
O dinheiro pode ser ponte entre vida e propósito, mas não é condição suficiente para a saúde plena. Porém, é bem mais fácil vivenciar emoções positivas e os diferentes estados de bem-estar quando o temos e estamos preparados para tomar as melhores decisões, embora isso valha também para as circunstâncias em que ele falta ou é escasso. A literatura aborda o assunto sob diferentes perspectivas.
Na crônica "Ricos", de 1953, Rubem Braga cita Bernard Shaw, segundo o qual "dinheiro é a coisa mais importante do mundo". O cronista se apressou em dizer que o laureado com o Nobel de Literatura de 1925 não era um agiota ou cínico, mas um homem de "vigorosa fé social" e que "viveu de seu trabalho".
Eu não diria que o dinheiro é a coisa mais importante, mas estou certo de que ele é um elemento indissociável da existência humana e pode ser ponte ou abismo entre as nossas vidas e os nossos propósitos.
O papel ou efeito do dinheiro na existência de cada um dependerá do que fazemos ou deixamos de fazer com ele e o que o dinheiro faz ou deixa de fazer conosco. Sem esquecer que há muitos que são privados da faculdade de escolha, pois são desprovidos de meios financeiros.
Imagine alguém que precisa fugir de seu país para salvar a vida, abandonando o lar, a família, os amigos, o ofício, a possibilidade de exercer plenamente a vocação, os propósitos de vida e os sonhos. Privado do direito de viver na própria pátria e desconhecendo qualquer apoio além das fronteiras nacionais, essa pessoa leva consigo apenas uma carta escrita por um amigo – na esperança de que um antigo contato do passado dele no exterior acolhesse aquela expatriada.
Essa personagem é a protagonista no livro "A festa de Babette", uma das obras favoritas do saudoso Papa Francisco. O conto de Karen Blixen, cuja adaptação ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1988, é para mim uma síntese das relações entre vida, emoções, dinheiro – ou a falta dele –, bem-estar e propósito.
Num esforço empático, é possível imaginar o suor profuso e o coração acelerado de Babette diante da ameaça de captura pelos algozes no massacre à Comuna de Paris em 1871; as mãos trêmulas e o corpo encolhido ante a incerteza de sucesso na fuga do seu país e dos riscos de não chegar ao destino pretendido ou, chegando, não ser acolhida; os lábios cerrados e cantos da boca caídos após abandonar uma vida consolidada e tudo o que isso representa; os olhos úmidos após as perdas afetivas; e o olhar distante e apagado, em condição de vulnerabilidade, desprotegida e em lugar desconhecido. Em todas essas circunstâncias, a falta ou limitação severa de dinheiro se fez presente.
E é desprovida de dinheiro que Babette é acolhida por duas senhoras puritanas que viviam em vilarejo na costa da Noruega. Mas aquilo que lhe faltava era compensado por inteligência emocional e habilidades notáveis. A vocação e as competências não se depositavam em bancos. E é assim que a personagem pouco a pouco retoma o controle da vida, recobrando emoções como a alegria de exercer um ofício que amava, a gratidão pela solidariedade, o alívio de viver sob a proteção de um teto e uma família, os afetos das relações humanas e a esperança de concretizar uma vez mais e em plenitude o propósito de vida.
Não, o dinheiro não é a coisa mais importante do mundo, pois não é condição suficiente para o bem-estar. Ter dinheiro e não fazer as melhores escolhas – que não necessariamente serão aquelas aconselhadas por muitos experts em finanças, ainda que os cálculos deles estejam corretos – é como estar diante de uma ponte para o destino pretendido e não saber atravessá-la, ou atravessar uma ponte que parece conduzir ao paraíso, mas de fato pode levar a um abismo. Exemplo disso é a crítica de Rubem Braga na crônica "Ricos", à qual se aplica o dito "engole um boi, mas se engasga com um mosquito".
As relações das pessoas com o dinheiro ora são mais fáceis, ora mais difíceis, e podem até ser escassas – para os que são privados desse convívio, por períodos mais ou menos prolongados. As dificuldades não decorrem apenas do desconhecimento, nem as formulações técnicas se aplicam a qualquer tipo de problema. A perspectiva do nosso olhar fará toda a diferença e as respostas que encontrarmos dependerão das perguntas que fizermos. Depois de ler "A festa de Babette", não ouso mais julgar as decisões de outras pessoas, embora possa ajudá-las com perguntas e olhares.

Antônio Lima Jr. escreve contos, crônicas, resenhas e outros textos, com ênfase na vida e nas relações pessoais com o dinheiro.
Sua escrita é fundada na ideia de que "A vida se completa quando há propósito, e o dinheiro pode ser ponte ou abismo entre os dois."
Fez o curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose e a oficina de escrita criativa de Marcelo Spalding, cursou a oficina literária Santa Sede e a Masterclass de Rubem Penz e, no Recife, frequentou as oficinas literárias de Paulo Caldas e de Raimundo Carrero. Tem formação de Coordenador de Laboratório de Leitura pela Casa Arca, com o professor Dante Gallian — método que propõe a humanização por meio da experiência estético-reflexiva da literatura clássica.
Participou de diversas coletâneas e antologias, a exemplo das publicadas pela Santa Sede Editorial, pela Editora Metamorfose e pela Oficina Literária Paulo Caldas, e ainda do Selo Off Flip, incluindo os seguintes destaques no livro publicado: um conto na Antologia Terra (2025); uma crônica no Prêmio Off Flip 2024; e um conto e uma crônica na Antologia Nordestes (2023). Prepara o primeiro livro solo. Leitura crítica.
Advogado e doutor em Saúde Pública, foi professor de ensino superior por cerca de 25 anos e auditor federal de finanças e controle por 20, hoje aposentado. É educador financeiro (DSOP) e cursa formação em Terapia Financeira Integrativa, pelo IPPLA.