×

A Galinha D'Angola

A Galinha D'Angola

por Jorge Pedro Almeida Lima

A Galinha D'Angola

A terapeuta, sentada na poltrona, ouvia o casal falar, os dois ao mesmo tempo, enchendo o consultório com queixas ditas tão alto, que era difícil entender o que diziam. Heloísa queixava-se de que o marido esquecia frequentemente o aniversário de casamento e o aniversário dela. Olhando para a terapeuta, apontou o dedo para o marido:
— Ele adia os passeios que combinamos, passa todo o tempo entre o trabalho e os amigos.
Anselmo levantou a mão e a terapeuta dirigiu sua atenção a ele.
— Trabalho pra gente ter uma vida melhor — disse Anselmo.
Heloísa franziu o cenho. A terapeuta pediu que se acalmassem, falassem um de cada vez e não brigassem.  
— Eu pago as contas, coloco comida em casa, não deixo faltar nada para ela. O que está faltando? — Ele cruzou as pernas enquanto abria os braços, olhando para a terapeuta.
— Quero o meu marido! — atalhou Heloísa, interrompendo Anselmo.
A terapeuta ajeitou-se na poltrona e perguntou a Heloísa o que ela esperava daquela terapia. A mulher confessou que pensara em se separar do marido mas, como ainda gostava dele, quis tentar a terapia para salvar o casamento. Ela enxugou uma lágrima que lhe escorria pelo rosto. Anselmo arqueou a sobrancelha, ajeitou os óculos e olhou para a esposa. Até ontem estava tudo bem em casa. 
 A terapeuta mudou a direção da conversa e perguntou a Anselmo se ainda se lembrava do dia em que pedira Heloísa em casamento. A risada de Heloísa preencheu o consultório. Anselmo entendeu o motivo. Ele não se lembrava sequer do aniversário de casamento; por que se lembraria do dia em que a pedira em casamento? Sorriu ante o muxoxo de incredulidade dela. 
— Eu lembro.
— Pois conte — disse a terapeuta.
Anselmo alisou os parcos cabelos que tinha e começou a desfiar suas memórias.


                                                                                                                                    ###


As imagens de Dunga erguendo a taça do tetracampeonato e do pênalti desperdiçado pelo italiano Roberto Baggio surgiram mais uma vez na televisão. Anselmo levantou-se do sofá e foi até a cozinha, abriu o forno e olhou o assado que estava no tabuleiro. Espetou-o com o garfo, provou o tempero e estalou a língua. Bastava mais algum tempo assando e estaria no ponto ideal.
 Estava assando uma galinha-d'angola.
Foi para o quarto e colocou na mesa de cabeceira uma pequena caixa azul-turquesa. Anselmo pegou um bilhete que estava sobre a mesinha de cabeceira e leu as palavras.  Fizera aquilo mais de uma vez naquele dia e já sabia de cor o que estava escrito, mas sempre que o lia, suas mãos suavam e o peito batia no ritmo de uma escola de samba. Entrou na sala, desligou a televisão e pôs uma música bem baixinho. Depois estendeu uma toalha limpa sobre a mesa, pôs pratos e talheres novos. 
Ele voltou ao quarto, vestiu sua melhor roupa e olhou-se no espelho. É muito simples. Entregue a ela esse anel, fale as palavras que você escreveu no bilhete e a beije  na boca. Viu como é fácil? Enquanto se perfumava, conferiu o relógio e arqueou as sobrancelhas. A campainha podia tocar a qualquer momento, pois já passava das sete. Sentou-se no sofá da sala e aguardou, ouvindo a música que colocara.
A campainha tocou pouco tempo depois. O jovem Anselmo saltou do sofá como se fosse impulsionado por molas. Esfregou as mãos úmidas e leu o bilhete em que escrevera as palavras que deveria falar. Ele abriu a porta e viu Heloísa. A jovem usava um esplêndido vestido salmão com um profundo decote e sandálias de salto alto. Ela abraçou o rapaz ao cumprimentá-lo. O perfume cítrico que usava invadiu as narinas de Anselmo, fazendo com que ele se demorasse no abraço um pouco mais do que devia. Anselmo beijou os lábios da moça, fez com que ela entrasse no apartamento e pediu-lhe que se sentasse. Foi até a cozinha e abriu uma garrafa de vinho Bordeaux, que havia comprado especialmente para aquele dia e que custara bem caro.  
Serviu o vinho em um cálice para Heloísa e sentou-se ao lado dela com o seu. Contou para a jovem que ela estava prestes a provar a melhor galinha-d'angola assada da vida. 
A moça sorriu. 
Os dois conversavam animadamente sobre o assado do jantar, até que ela interrompeu a conversa e levou a mão ao nariz. 
— Algo está queimando.
 Ele colocou mais vinho no cálice dela. 
— Não deve ser nada.
 A conversa seguiu entre risos até que a moça colocou o cálice sobre a pequena mesa no centro da sala. 
— Anselmo...
Ele levantou-se, dizendo que devia ser algo na casa do vizinho. Anselmo correu até a cozinha, atraído pelo cheiro forte que sentira, e abriu a porta do forno. Uma fumaça escura atingiu seu rosto. Ele gritou ao mesmo tempo em que soltava palavrões. Usando uma toalha, tirou a assadeira do forno e colocou-a sobre a mesa. A galinha-d'angola estava lá, carbonizada. 
Heloísa abriu as janelas da sala e, quando entrou na cozinha, cobriu a boca para reprimir um grito. Anselmo estava sentado em uma cadeira diante do jantar fracassado, limpando as mãos em uma toalha. A fumaça e um cheiro desagradável tomaram a cozinha. O rapaz suspirou, levantou-se, abriu o armário, remexeu em alguns pacotes de alimentos e retirou dois de miojo. Mostrou-os para Heloísa, que sorriu para ele.
Anselmo colocou o macarrão na panela e, em poucos minutos, preparou um novo cardápio para aquela noite. Pôs na mesa uma travessa de vidro com macarrão, ovos cozidos e a garrafa de vinho Bordeaux. Serviu o prato de Heloísa e depois se serviu. O casal jantou entre risadas enquanto conversava sobre o desastre que acabara de testemunhar. No fim do jantar, Anselmo apalpou o bilhete no bolso da calça. Tirou os pratos da mesa e os levou para a cozinha. Entrou no quarto enquanto Heloísa o esperava, pegou a caixa azul-turquesa e guardou-a no bolso. O jovem sentou-se à mesa e tentou dizer as palavras que havia escrito no bilhete, ainda tocando-o por cima da calça. Nada. Anselmo gaguejava enquanto seu peito batia no ritmo de uma escola de samba. Heloísa o interrompeu para perguntar o que estava acontecendo. Ele levantou-se e colocou uma música bem romântica, estendeu a mão para Heloísa. Ela a segurou e ficou de pé.
 O casal dançou abraçado. Anselmo girou com Heloísa na pequena sala do apartamento.  
— Você dança melhor que cozinha.
 Anselmo riu e os dois continuaram dançando até os últimos acordes da música. Quando pararam, Anselmo permaneceu abraçado a ela. Ele levou as mãos ao bolso e, com dedos trêmulos, tirou a pequena caixa azul-turquesa. Quando tentou abri-la, ela escapou de suas mãos, obrigando-o a se abaixar para apanhá-la. 
— O que é isso? — perguntou Heloísa. Anselmo pôs-se de pé e ajeitou o cabelo e as roupas. Abriu a caixa e tirou de lá a joia. Era um anel de ouro enfeitado com pedrinhas azuis. Anselmo entregou a joia para a moça.
 — Vo-vo-você quer se ca-casar comigo, He-He-Heloísa?
 Um sorriso franco iluminou a face da jovem, que estendeu a mão para receber a joia.
Anselmo a abraçou e seus lábios tocaram os dela. Heloísa contemplou o anel no dedo com um sorriso bobo enquanto Anselmo a abraçava. 
                                                                                         

                                                                                                           ###


— E lá se foram trinta e dois anos — disse Anselmo, ajeitando os óculos, olhando para a terapeuta.
— Você lembrava de tudo isso? — Heloísa olhou para o marido.
O homem apenas confirmou com a cabeça.
— Lembra do que eu disse depois que dançamos?
— Danço melhor do que cozinho.
Ela riu. A terapeuta observava os dois.
— Ah, é? Então como você consegue lembrar disso tudo e esquecer de mim, do dia do meu aniversário, do dia do aniversário do nosso casamento...?
Um silêncio se fez no consultório. A terapeuta apontou o dedo para Anselmo, pedindo que ele respondesse. Ele remexeu-se no sofá. Tentou responder, mas interrompeu-se antes de articular qualquer palavra. Calou-se por alguns instantes. A terapeuta continuou olhando para ele. 
Por fim, ele disse que trabalhava muito para dar à Heloísa a vida que ela merecia, apenas isso. 
— Eu só queria que você estivesse lá — disse ela. 
Anselmo baixou os olhos, segurou as mãos da esposa e lhe pediu outra chance.     Ela hesitou.
— Você ainda é um péssimo cozinheiro.
Ele riu.
 — Isso não vai mudar.
— Mude o resto, então.
Anselmo assentiu.
— Então, sim — disse Heloísa.
A terapeuta olhou para o relógio em seu pulso. Anselmo abriu a porta para a esposa e, antes de saírem do consultório, perguntou:
 — Quer jantar comigo hoje à noite, Heloísa?
— Mas deixa que eu cozinho, tá?

 

Jorge Pedro Almeida Lima
Jorge Pedro Almeida Lima
Rio de Janeiro/RJ

Jorge Pedro Almeida Lima

Meu nome é Jorge Almeida, residente no Rio de Janeiro capital e formado em Engenharia Civil. Trabalho há 17 anos como Engenheiro Civil na área de Gestão de Projetos para obras de infraestrutura  e saneamento básico para áreas carentes do município do Rio de Janeiro. Leitor voraz de romances e literatura clássica, descobri na Escrita Criativa um novo prazer.