por Guilherme de Oliveira Melo
Talita e Luana estavam acostumadas com o ambiente das pequenas cidades. Sujeira por todos os lados, o cheiro ácido impregnado no ar.
No balcão de informações, perguntaram de algum lugar onde poderiam passar a noite.
— A câmera está ligada? — Talita perguntou.
Luana conferiu o visor antes de responder.
— Gravando, desde o ônibus.
Elas filmavam tudo, tudo mesmo. Visitavam as cidades do Brasil em busca de locais incomuns para fotografar e gravar vídeos para o Youtube, tudo pelo sonho de viralizar e mudar de vida.
— Estou sentindo que o nosso canal vai bombar — Talita profetizava.
Depois de tantos vídeos que não deram em nada, Luana não tinha tanta confiança que algum dia daria certo.
Entraram na pousada, que parecia mais uma casa cheia de quartos. Uma mulher velha e corcunda se aproximou, tinha o cabelo comprido e usava uma longa saia. Alugaram um quarto para o final de semana.
***
Na manhã seguinte, acordaram cedo como sempre. Às sete horas já saíram daquela pousada, deixando metade de seus pertences. Se elas soubessem que jamais voltariam, se soubessem o que aconteceria, se soubessem que a cidade essa cidade era um péssimo destino, nunca teriam descido daquele ônibus. Afinal, a cidade de Quatro Ventos nunca foi um lugar para receber turistas.
Encontraram um centrinho. Os comércios aos poucos começavam a serem abertos. Passavam por pessoas com cara de sono, caminhando quase como zumbis, sem notá-las, como se elas não estivessem ali. Entraram em uma padaria. Após saborear alguns pães de queijo, se perguntavam qual seria o lugar mais inusitado cumprir a missão do dia.
O atendente se intrometeu na conversa delas.
— A casa do lago, com certeza.
— Quem vive lá? — Luana perguntou.
— Ninguém.
Uma casa abandonada, Luana pensou. Somente na troca de olhares já sabiam para onde deveriam ir.
— Eu falei por falar, moça. Não é seguro ir naquele lugar. Por causa da garota...
Ficava cada vez mais interessante. Era agora que elas conseguiam viralizar.
— Por que não?
Ele não respondeu, um homem no fundo da padaria praguejou para o atendente voltar ao balcão
Existe apenas uma coisa em comum em todas as cidades brasileiras. Elas têm suas lendas próprias. O fantasma, o bicho, papão, o lobisomem. E nos pequenos centros urbanos, essas crenças são levadas a sério, tanto quanto a bíblia.
Descobriram no posto de gasolina a trilha que levava para o famoso lago. Ao cruzarem por dentro do mato, não conseguiam ver a casa, porque naquela hora da manhã, a cerração era baixa.
A única parte do lago que era rasa o suficiente, ficava no canto, bem à direita. Conseguiram atravessar sem molhar o equipamento. Ao abrirem a porta da casa, perceberam que haviam entrado em um lugar morto. Uma ratazana enorme assustou Talita, ela pulou para trás enquanto seus olhos seguiam o animal. Ela disparou para o corredor escuro.
Mais curioso era que, neste caso, ninguém ousou entrar para roubar nada. Eles realmente acreditavam no fantasma. Os quadros nas paredes estavam intocados, os móveis bem posicionados, mas de todos os pertences deixados para trás, Luana fixou a atenção foi no vasto acervo de livros nas prateleiras.
Talita ligou sua câmera no modo de gravação enquanto Luana mexia em tudo, suas mãos ficaram completamente sujas. Estava tão imersas naquilo que seus olhos viam, que esqueceram do mais importante: produzir seu conteúdo.
Um vulto passou, junto veio um vento gelado.
— Você viu? — Luana pegou seu smartphone e iniciou uma live, posicionou a câmera sobre a mesa. — As pessoas vão enlouquecer com isso!
Talita estava entretida demais com os livros empoeirados para perceber qualquer coisa que acontecesse na frente de seu nariz.
— O que? — o vento gelado passou tão forte por ela, que o livro voou de suas mãos. Ela correu para buscá-lo.
Então o tempo parou. Uma menina apareceu diante delas, usava um vestido branco, seus volumosos cabelos negros estavam trançados, igual aos da Rapunzel. Ela era uma princesa.
— Não deveriam estar aqui — a menina disse, com um sorriso aberto.
— Eu sei, eu sei — Talita respondeu. — Mas nós precisávamos tirar as fotos, fazer o vídeo para viralizar e poder ganhar dinheiro.
— Vamos embora daqui, esquece essa porcaria de vídeo — Luana disse.
— De jeito nenhum! Essa é a nossa grande chance.
Aos poucos o vestido branco começou a se afastar delas, até chegar perto da saída e desaparecer. Talita estava imersa em um transe impossível de sair, Luana ainda tinha consciência. Talita correu atrás dela. Passou pela porta, chegando no pátio, ao horizonte, estava a água. Viu a pequena menina, sentada em um tronco, na beira do lago.
Luana veio depois, tentando tirar Talita daquele lugar, mas ao se aproximar dela, também foi pega pelo transe da pequena fantasma. A menina estava diferente. Nada daquele belo sorriso, o rosto ficou envelhecido, com profundas marcas de rugas — como se tivesse passado muito tempo de baixo da água. Mesmo assim ignoraram, estavam encantadas demais. A pequena se levantou, ficando entre as duas, dando uma mão para cada.
— Eu conheço o mais belo lugar para fotografarem — ela disse, as levando na direção do lago. — Lá é lindo.
A live que Luana iniciou, em pouquíssimo tempo pegava milhares de visualizações. O ponto alto foi o momento em que as três pularam no lago. E a fantasma tinha razão, lá debaixo da água era lindo. Elas acabaram de viralizar.

Tenho 33 anos, escrevo desde 2014 e atuo profissionalmente com marketing desde 2019. Atualmente, sou fundador da minha própria agência de marketing, onde trabalho com estratégia, comunicação e produção de conteúdo.
Na literatura, publiquei os contos O Homem da Capa Preta, Beijo da Morte e Alium, pela Editora Cartola, além de Cleptomania, pela Editora Oito e Meio.
Sou apaixonado por terror, fantasia e distopia, e acredito que boas histórias têm o poder de provocar emoções, questionamentos e permanecer na memória do leitor. Hoje, sigo escrevendo novos projetos enquanto compartilho minha jornada e meu processo criativo com quem também sonha em transformar ideias em histórias.