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A saudade que desperta

A saudade que desperta

por Elisa Lempek

A saudade que desperta

Hoje eu acordei subitamente. Fui despertada pelo aperto no peito e pela sensação sufocante de uma bola na garganta. Percebi meus batimentos cardíacos acelerados e minha mente evocando o mesmo pensamento que reverbera em mim toda vez que penso em ti: "Em um instante, tudo pode mudar. O que era pode deixar de ser. O que seria pode nunca mais se tornar."

Todo dia 18, a lembrança daquela tarde volta à minha mente. A mensagem da minha irmã dizendo que tu tinha saído de casa, de carro, sem avisar ninguém. Os fatos se reapresentam, como se eu ainda buscasse alguma informação nova, algum detalhe perdido, algum sinal ignorado que pudesse mudar o desfecho tão doloroso da tua partida repentina.

Cinco anos depois, ainda há dias em que minha mente parece não compreender o que aconteceu. Como se revisitar aquela tarde, mais uma vez, pudesse revelar alguma coisa que me escapou. Como se, em algum lugar entre as lembranças, existisse uma possibilidade de mudar o que não pode mais ser mudado. Enquanto escrevo, deixo as lágrimas escorrerem pelos meus olhos tristes e saudosos. Meus ombros ficam tensos. As memórias ainda doem. Sinto tua falta, pai.

Sinto falta do teu olhar cansado, mas seguro e protetor. Aquele que me dizia, sem precisar de muitas palavras: "Não precisa te preocupar, vai ficar tudo bem". Tudo ficou tão diferente.

Nem na minha fantasia mais louca eu imaginaria que o futuro seria este. Que haveria tantos acontecimentos dos quais tu não participaria, tantas histórias que eu não poderia te contar, tantos momentos em que ainda desejaria encontrar aquele olhar que me transmitia segurança.

A nossa história me faz refletir diariamente sobre o quanto planejar o futuro não significa ter o poder de controlá-lo. Fazemos planos, organizamos os dias, imaginamos possibilidades e, de alguma forma, acreditamos que haverá tempo. Tempo para realizar, para conversar, para visitar, para dizer. Tempo para tudo aquilo que deixamos para depois. Mas a vida nem sempre respeita os nossos planos. Às vezes, um instante muda tudo, sem aviso e sem possibilidade de negociação. E, quando o futuro que imaginávamos deixa de existir, precisamos encontrar maneiras de continuar vivendo no presente que ficou.

A tua partida abrupta me ensinou a desacelerar, pai. Não porque a tua ausência precisasse acontecer para que eu aprendesse alguma coisa. Mas porque, depois de experimentar tão profundamente a imprevisibilidade da vida, muita coisa em mim mudou.

Hoje, eu me demoro no cheiro do café. Olho nos olhos de quem me escuta. Deixo o celular de lado para contemplar pequenos detalhes, como uma joaninha que aparece no sofá da sala numa noite qualquer. Vou ao encontro das pessoas para conversar e me interesso genuinamente pelo que elas têm a dizer. Ofereço abraços quentinhos e recebo gentilezas em forma de biscoitos e chocolate. Aprendi a sorrir com o ronronar dos gatos e ao observar as crianças brincando.

Às vezes, deixo a roupa na máquina esperando para tomar meu café da tarde sem pressa, responder a uma mensagem no WhatsApp com atenção ou terminar o capítulo de um livro interessante. Já não sinto tanta necessidade de fazer tudo imediatamente. Nem de transformar cada minuto em alguma coisa produtiva. Tenho aprendido que a vida também acontece quando não estamos tentando fazer ela acontecer.

Isso não significa que deixei de fazer planos. Continuo imaginando o futuro, desejando coisas, construindo caminhos. Mas tento não esquecer que o futuro é apenas uma possibilidade, enquanto o presente é o lugar onde a vida, de fato, acontece.

Cinco anos depois, sigo vivendo os dias que não imaginava viver, construindo novas memórias, acompanhando o crescimento das crianças, descobrindo outras maneiras de estar com as pessoas que me fazem bem. Conheci tantas pessoas novas e maravilhosas, pai! Queria tanto te contar sobre essas experiências, como te contei sobre outras naquele último domingo em que estivemos juntos.

Talvez eu nunca deixe de desejar que as coisas tivessem sido diferentes. Talvez ainda existam momentos em que eu queira te contar alguma coisa e precise lembrar, mais uma vez, que não posso mais fazer isso. Não posso voltar àquela tarde. Não posso mudar o desfecho. Mas posso continuar aprendendo a conviver com tudo o que ficou sem resposta, atenta ao que me cerca, disponível para os encontros, para os afetos e para a vida que acontece agora. Sigo aprendendo, pai.

Te amo.

Elisa Lempek
Elisa Lempek
São Leopoldo/RS

Elisa Lempek

Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.