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Adeus, amigo

Adeus, amigo

por Renato César Batista dos Santos

Adeus, amigo

Chegou de surpresa, como uma chuva boa em terra seca. O seu jeito calmo e alegre, a sua aparência bela e pequena, o seu olhar amigável com um gesto inconfundível, cativou a todos da casa. A empatia tomou conta do ambiente e logo se juntou ao lar. Depois, você se foi, nos deixou de repente e não consigo entender.
Quando você chegou, na primeira manhã, você olhou para o pão, mas não percebeu o café e outras coisas expostas à mesa. Alcançou altura esticando os pés na cadeira e passou a ver mais além. Pareceu faminto e, aproveitando o momento em que todos deixaram o recinto, comeu todo o queijo em barra, quase num instante. Não demorou muito e começou a se sentir mal. 
Fizemos uma visita ao médico, sendo constatada uma infecção intestinal. Precisou de cuidados emergenciais, ficou internado naquele hospital até o dia seguinte. Saiu com aquela expressão de arrependimento, olhos baixos e rabo esticado em direção ao chão, mas tudo se desfez logo ao chegar a casa. Todos da família o abraçaram e riram da sua desfaçatez.
O seu jeito amigável contagiou a todos. O gesto particular de levantar as patas como se estivesse batendo palmas ao cumprimentar a todos era muito engraçado. As suas brincadeiras infantis e as corridas pelos parques tomavam o nosso tempo livre, acalmando as tensões do dia a dia. Aquelas viagens longas de férias em família com destino à praia eram cansativas, mas valiam a pena pelos momentos inesquecíveis. 
As cidades, os pontos turísticos e monumentos, e você, algumas vezes, cismava com alguns detalhes naturais, até que uma brincadeira surgisse no caminho e mudasse a sua intenção, seguindo outro rumo. Você uma vez estranhou a imagem de um bezerro gigante num posto de gasolina; foi preciso te colocar no colo, enquanto continuava a rosnar com os seus dentes minúsculos expostos.
Amigo, a vida andou e lhe apresentou novas oportunidades, enfrentadas com vigor. Viveu os encontros e as decepções das experiências sem pestanejar nem mudar os gestos afetuosos. Encontrou o seu espaço no mundo e exerceu com eficiência e boa vontade, sem deixar de lado o maravilhoso de sua natureza. Assumiu a sua importância no lar, sem perder a sua essência. 
Não houve tempo de tristeza e abandono; sempre soubemos o quanto era precioso para nós, e fizemos tudo por você. A indiferença nunca lhe atingiu e continuou conosco; jamais negou a sua companhia e amizade.
O tempo é imutável e não perdoa a vida. A sua caminhada se alargou em uma década e meia, independentemente do que fizeste ou não, mas, amigo, a sua vida foi generosa em sua missão particular, mas a idade limite de sua natureza se aproximou. Você se esforça para fazer tudo como antes, agora o corpo pequeno de pelo branco e frágil não o permite, entendemos isso. 
Não consegue fazer aquelas graças e carinhos, brincadeiras e gestos; nós entendemos e cuidamos de você. O tempo tira as suas forças e os seus movimentos; descansa em silêncio, deitado ao nosso lado. Ainda assim, quando é preciso se movimentar, faz com dificuldade, demonstrando a alegria de sempre. Não reclama das dores e das dificuldades que o tempo guardou e nos faz companhia, tenta nos proteger.
Hoje, amigo, você se sentiu mal após o agravamento da situação. Não foi aquele pedaço enorme de queijo do princípio. Foi uma coisa mais grave, consequência do tempo de permanência na Terra. Não reclamou de nada, mas nós percebemos e agimos com o cuidado necessário. Depois de muito tempo, retornou ao mesmo local, a emergência médica.
A profissional constatou a gravidade e a necessidade da intervenção clínica urgente. Não só de um dia, mas de uma semana, muito tempo para nós, a família. Muito difícil, mas, quando a noite virou, você despertou ainda com dificuldade visível. Que bom! Você resistiu ao tratamento, porém era preciso aguardar o restabelecimento. Decepção. Queríamos voltar para casa, contigo, mas seguimos as orientações dadas para retornar no outro dia. Ficamos torcendo e orando por ti.
Ficou na clínica, já conhecida, recebendo os cuidados de pessoas amigas. Enviaram um vídeo do seu perfeito restabelecimento; parecia tranquilo e bem cuidado. Acordamos mais cedo e planejamos ir buscá-lo o mais breve possível. Antes de sair de casa, recebemos uma ligação telefônica; ela dizia:
 — O nosso amigo não resistiu; ele partiu como um raio em direção ao céu. Vai brilhar com a sua felicidade em outro lugar, vai iluminar outros corações amigos, na eternidade.
— Disse a médica, fiz o que estava dentro das minhas possibilidades, ela também sentiu a sua partida.
Agora, sentimos a sua presença na casa que marcou a sua alegria: carinhosa e amiga. Não sentimos tristeza, contraste da vida que você nos ensinou. Vivemos das boas lembranças, dos seus gestos e sentimentos transmitidos em sua célere existência. Notamos a sua ausência física, mas, quando olhamos para o céu, uma pequena estrela se firmou na imensidão do universo.
 

Renato César Batista dos Santos
Renato César Batista dos Santos
Brasília/DF

Renato César Batista dos Santos

Nascido no estado da Bahia, assumiu carreira no serviço público em Brasília, onde permaneceu por quase trinta anos. É professor, palestrante, amante da leitura, escreve poesias, crônicas e contos já publicados.