por Luisa Leite
Lentamente, caminhamos até a estação de trem. Seus olhos verdes me cativaram antes mesmo de eu saber o seu nome. Eles estão ainda mais bonitos agora, refletindo a luz do sol que também está indo embora.
Passamos o dia todo com nossos dedos entrelaçados e ainda não me sinto pronta para soltar sua mão. Descemos os degraus e você compra o bilhete em uma cabine eletrônica. Eu apenas observo, tentando fingir que isso é só mais um gesto comum.
O trem parte logo. Nós sabíamos que esse momento chegaria.
Sentamos em um dos bancos e relembramos todos os momentos que nos levaram até ali. É fim de inverno na Sicília e uma brisa fria me corta, gelando todo o meu corpo. Mas não as minhas mãos, que continuam quentes por causa do calor que emana das suas.
Tudo aconteceu muito rápido, como uma chuva de verão que chega sem avisar e parte da mesma maneira. Mas o que importa é o frescor que essa chuva passageira traz e esse foi o efeito que você trouxe para a minha alma.
Falamos de passado e presente, evitando o futuro, incerto demais para caber em planos. Quando as palavras cessam, é hora do último beijo. Não temos muito tempo. Só nos resta um minuto.
Minhas pernas pesam como chumbo, mas me obrigo a levantar. Encaro seus olhos pela última vez. Foram eles que me trouxeram até aqui.
"Eu vou te ver de novo", você me diz.
Eu sorrio, porque sei que vai acontecer. Se encontros são divinos, reencontros são escolhas. E eu escolheria te reencontrar muitas outras vezes.
Você segue em direção ao trem e eu vou rápido para a saída. O apito ecoa pela estação, quebrando o silêncio. Me recuso a olhar para trás e pisco várias vezes, porque não quero que as lágrimas apareçam.
Assopro minhas mãos para aquecê-las. É a primeira vez que as sinto geladas desde que te conheci.

Luísa Leite é escritora, viajante e professora de português para estrangeiros. Formada em Engenharia de Alimentos, encontrou na escrita uma paixão que já se manifestava durante os anos de graduação e trabalho na área. Em 2025, após viajar sozinha por Minas Gerais, embarcou em um mochilão de sete meses pela Europa, experiência que a levou a mudar de carreira e buscar uma vida dedicada à escrita. É autora da newsletter Então o mundo é nosso, publicada no Substack, onde compartilha ensaios pessoais e relatos de viagem. Em 2025, participou da coletânea de contos Casos de Família, publicada pela Editora Metamorfose.