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Antes morta que muda

Antes morta que muda

por Branca Lopes Boson

O Governo Planetário resolveu criar o Feriado da Integração como uma das medidas para resolver o surto de transtornos de solidão, que superou 20 milhões de óbitos anuais no planeta. O número veio crescendo desde a Primeira Pandemia da Era Moderna, lá nos idos de 2020, passando pelas ameaças constantes da eclosão de uma Segunda, que nunca veio, até superar todas as outras causas de morte.

As pessoas que não estivessem acamadas deveriam exercitar algum dos dez Motores de Interação da Carta da ONU com regularidade. Foi criada uma polícia internacional para garantir a execução dessas ordens. Qualquer crime cometido no Dia da Integração seria automaticamente considerado hediondo, categorizado na mais alta pena das cortes criminais dos países. Guerras eram suspensas. Tornou-se obrigatória a paz e a confraternização.  E se deu que a minha avó, de apenas 134 anos, decidiu que esse seria o melhor dia para morrer.

Ela invariavelmente ia aos eventos do feriado sob protesto, já que era uma anarquista por natureza. Só que, desta vez, ela exagerou. Estávamos nos arrumando para ir ao local de costume: uma praça próxima de casa onde há uma feira e alguns shows bem calmos de música de ondas alfa e binaural. Era a opção escolhida para evitar ao máximo a guerra com ela, que culminava em penas severas para a família.

Já tinha tentado se fingir de acamada, mas não adiantava. Era preciso passar por vistoria e ser internada em algum centro de atendimento. Estranhamos ela não ter saído do quarto para o café da manhã. O robô cuidador estava desligado, como ela teimava em deixar, porque não ia obedecer a uma máquina. Nunca obedeceu nem a humanos. Dessa forma, não tivemos notificação que antecipasse a visão dela imóvel em sua cama.

Quando ela ia a esses eventos, empurrada, se recusava a interagir e tínhamos que ficar simulando conversas. Para a polícia de integração, não era suficiente estar no local. A socialização tinha que ser comprovada. E nem mesmo era permitido que os mesmos grupos ficassem juntos todas as vezes. Era imperativo conversar com pessoas diferentes, realizando uma espécie de giro na festa. Sempre havia agentes à paisana misturados com as pessoas.

Dona Dilcineia era fogo! A Primeira Pandemia a encontrou bem na fase rebelde da adolescência. Dizem que a bisa ficava de cabelo em pé quando a filha, nos finais de semana, virava as noites na rua. Eram festas clandestinas, que sofriam denúncias anônimas e batidas policiais, mas só mudavam de lugar.  Ela não se conformava com o estado de sítio decretado, com o toque de recolher imposto, que era como chamava as medidas sanitárias. "Qualquer fazendeiro sem estudo sabe o que se pode ou não fazer pra o gado dar leite, pra galinha dar ovo; ele sabe manejar o rebanho. Como a OMS e os governos não sabem que esta quarentena é que vai matar a população de humanos? ". À bisa, já cansada de discussões, restou clamar aos céus para que a filha não pegasse o vírus maldito. Exigiu, ao menos, que ela entrasse pela cozinha, fosse direto para o banheiro do quarto de empregada e tomasse banho antes de ir para o seu quarto. E que usasse máscara perto da família.  E que tomasse a vacina.

A cada década inflamava mais e mais os discursos sobre os efeitos do "manejo estúpido dos animais humanos", pronunciamentos alimentados por toda e qualquer notícia que corroborasse a sua bandeira. E não foi difícil. O surto de solidão e transtornos de ansiedade, a queda de natalidade mundial, o uso descontrolado das redes sociais, os suicídios entre adolescentes, dentre muitas outras coisas, eram provas contundentes de que ela tinha sido visionária, e não negacionista.

Tudo isso foi fermentando uma revolta imensa, que custou a ser domada. Não pelos outros, impotentes, mas por ela mesma. Entendeu, enfim, que seu comportamento também era um efeito colateral da Pandemia. A raiva estava dominando seu corpo saudável, que não sofreu nem uma gripezinha naqueles tempos sombrios. "Nem eu e nem os operários da construção civil e os motoristas de transporte público, que não pararam de trabalhar um dia sequer! ", costumava dizer.

Se houvesse coisa que ela não suportava ouvir era o tal de Novo Normal, que acompanhava as previsões de uma humanidade transformada e mais unida. Dava gargalhadas de vilão.   Apenas parou de rir quando o avanço das ditaduras, um dos efeitos vaticinados por ela, desembocou na criação do Governo Interplanetário, como "efeito da megalomania que acompanha os ideais autocráticos". Vencida, parou de protestar. Com o alastramento de conflitos cada vez maiores e piores, e depois da bomba atômica do oriente matar milhões de uma vez, e ter mudado o eixo socioeconômico do mundo, afinal, mudou o seu próprio eixo de vida. Diante de uma tragédia tão incomensurável, desistiu. A raiva a consumiu como a detonação de uma ogiva interna. A sua rebeldia passou a ser muda, condição raras vezes interrompida para reclamar do azar de ainda ouvir e enxergar bem apesar dos mais de cem anos. "Essa merda de ciência!".

Mesmo silenciosa, só fazia o que queria. E, para mim, morreu no dia que quis, como último protesto. Que as pessoas se juntassem no Dia da Integração, sim, mas por obrigação do seu enterro.

Branca Lopes Boson

Branca Boson é especialista em Comunicação, e sempre foi amante das ideias. Trabalha com mentoria em expressão, ghostwriting e redação. Caçula de pais professores e intelectuais, mãe da Letícia, uma bela médica em começo de carreira.  Escreve para tirar o extraordinário do ordinário, provocar emoção em quem passa batido, fazer pensar e dar significado. Branca acredita que tudo tem história para contar, sejam produtos, empresas ou pessoas. E que o ser humano conta histórias para (sobre)viver, se relacionar e evoluir.

Mestre em Gestão da Informação pela Fundação João Pinheiro. Especialista em Gestão Estratégica em Marketing pela UFMG e em Responsabilidade Social Empresarial pela PUC Minas, atua no desenvolvimento da expressão autoral de profissionais e líderes, ajudando-os a transformar conhecimento, experiência e propósito em narrativas claras, autênticas e influentes. Autora de romances e contos, integra a prática da escrita à mentoria, unindo pesquisa, estratégia e linguagem para fortalecer posicionamentos, ampliar impacto e construir uma comunicação coerente com a identidade de cada pessoa.

Sua literatura explora as contradições humanas, os preconceitos sociais e os processos de transformação. Em seus livros, aborda temas como identidade, envelhecimento, violência de gênero, relações afetivas, etarismo, tecnologia, liberdade e reconstrução pessoal. Seus contos revelam, com ironia e sensibilidade, as surpresas do cotidiano e as complexidades da condição humana.