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ANTÍTESE

ANTÍTESE

ANTÍTESE

Luana Real

Eu sempre quis ter uma barba cheia, vistosa. Aquela coisa de homem, sabe? Igual à do meu pai. Ele se fez sozinho, o meu pai... Veio de quase nada e não precisou de estudo para conseguir ter uma família, manter a casa e, olha, nunca nos faltou nada. Talvez ele pudesse ser sério demais. Mamãe o chamava de sisudo. De qualquer forma, como eu disse, era um homem feito! Por que eu estou entrando nesse assunto? Ora, você me pediu para contar os eventos que nos trouxeram até aqui. Bom, só se pode começar pelo começo e esse foi o marco zero: a barba.

Lá pelos meus 14 anos, comecei a vasculhar o rosto, na frente do espelho do banheiro, em busca daqueles pelos prometidos. Absorvia, nesse processo, o respeitável cheiro da loção de barbear do meu pai. Me admirava ao observar o seu ritual: lavar, pentear, raspar o seu contorno com a gilete e passar a loção. Eu mal podia esperar para sentir o peso dos olhares que eu receberia no futuro. Segui na minha busca por anos, porém nada de barba. Ao invés dela, encontrei a acne.

Em certo ano, meu irmão mais novo, começou a se deparar com seus primeiros pelos dourados. Minha pele apresentava erupções e inflamava. A do meu irmão, uma pelugem cada vez mais evidente. Ele aprendia a lapidar as falhas do seu crescente pelo facial com a orientação de nosso pai. Enquanto eu era obrigado a lidar com as falhas cada vez mais profundas na minha face sob o mando de mamãe sendo forçado a visitar o dermatologista e aplicar medicações. Eu não segui essas prescrições estúpidas. Pouco me importava a deformidade se alastrando por meu rosto.

Por quê? Te respondo com outra pergunta: para quê? Eu sabia que a solução viria, em breve, na forma de uma barba. Ela seria robusta o suficiente para substituir meu semblante juvenil pelo de um homem adulto. Pois é, como você deve ter percebido, não foi isso que aconteceu. Quando alguns fiapos resolveram dar o ar da graça, começaram a inflamar ainda mais a acne. Cheguei a ter febre e, nesse ponto, fiquei sem alternativa: cedi ao tratamento. No entanto, era tarde demais. Sem efeito, a única solução para lidar com aqueles pelos encravados foram as sessões de depilação a laser.

Já meu irmão recebeu sua barba. O ritual na frente do espelho do banheiro foi passado, de pai para filho, a ele. A mim restaram as represálias por não ter me "tratado" em tempo, não ter feito melhor uso das "oportunidades" dadas por mamãe, não ter sido "responsável". Como se eu fosse o culpado pelas consequências do direito que me foi roubado.

Sabe o que é pior? Meu irmão não honrava o seu legado. A irregularidade e um certo bigodinho era motivo de chacota entre seus colegas. O ritual também o incomodava. Ele se cortava, não se entendia com seus pelos e acabava por eliminá-los, dia após dia.

Aquele moleque fedendo a leite se desfazia deles, na minha frente, com o maior desprezo. Me horrorizava ver a água levando o ouro, a cada batida de gilete no porcelanato da pia, ralo abaixo. Ainda assim, era ele quem caminhava ostentando o respeitável odor da loção de barbear por aí, enquanto eu carregava um rosto funesto destinado ao fracasso.

O tempo passou. Ele nunca espera por ninguém, mas eu desconfio que tenha seus favoritos. Bom, a barba do meu irmão floresceu e fui obrigado a assistir seu desenvolvimento de camarote. Vencida a desfeita inicial, ele conseguiu domá-la, aprendeu a cultivá-la, chegou a ser seu orgulho, teve um período de experimentações até que, enfim, passou a se sentir confortável em sua companhia. Não lhe era mais desgastante, motivo de vergonha ou de ostentação. Apenas era.

Sim, é verdade. Meu irmão me incentivava, procurava me dar suporte. Ele parecia perceber o ressentimento, resultado do meu insucesso generalizado, me devorando as entranhas. De qualquer forma, como ele poderia entender? Meu rosto asqueroso afastava o sexo oposto. O bumbum de bebê estampado na minha cara repelia qualquer coisa merecida por um homem. Ele encontrou uma esposa troféu, formou sua própria família e a manteve com uma carreira impecável. Devia ser impossível resistir a uma barba daquelas.

Se eu tivesse aquela barba, também teria a minha família de margarina. Sem dúvida, teria sido levado a sério para excelentes vagas de emprego ao invés de passar despercebido pelas entrevistas. Teria me feito ser socialmente aceito em cada bar, festa... Inferno! Em qualquer casa de suingue ou bordel que eu tenha entrado em toda a minha vida. Aquela bendita barba teria feito meu pai me ver como um homem feito, não um projeto mal-acabado.

Gesto nobre? Meu irmão mais novo, do alto de sua torre, a exuberante barba ao vento, me estendendo a mão heroica? Raspasse ele aquela barba bem-feita e viesse vagar, mundo afora, de cara despida, junto comigo, fosse compaixão o que ele sentia. Não, senhor. O que ele sentia e sabia... de alguma forma ele sabia. Garanto! Era que eu desejava aquela maldita barba e, insensível ao meu tormento, insistiu em esfregá-la na minha cara. Deus! Posso jurar ter sentido cada bofetão dado por aquele amontoado inanimado de matéria biológica. Podia ouvi-la rir da minha pele desnivelada.

Então, no final, eu acabei sem um irmão, mas quem ficou com a sua barba fui eu. E eu imagino, delegado, que seja esse o motivo de eu estar aqui. Certo? Pois eu pude me desfazer de cada pedaço de sua carcaça, mas não do punhado de pele que continha aquela barba desgraçada.