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Boletim de empresa

Boletim de empresa

por Ildeu Geraldo de Araújo

Boletim de empresa

 

O diretor da empresa onde faço freelance me pediu um artigo sobre o Dia dos Pais para o boletim interno. "Mole pra mim", pensei, sentei-me diante do computador, abri o Word e comecei a imaginar numa bela frase para prender, de cara, a atenção do leitor. Ela não apareceu de imediato. Fiquei olhando para a tela vazia, aquele risquinho piscando, os dedos tamborilando de leve no teclado. Nada. Resolvi tomar um cafezinho na copa. O pessoal estava discutindo futebol, esperando a Maria acabar de passar o café. Fiquei olhando aqueles caras: seriam casados, teriam filhos, seriam bons pais? Voltei ao computador. A tela continuava virgem como um lírio.

 Depois de alguns minutos, comecei a ficar impaciente. Meus dedos digitaram por conta própria:

Ser pai é padecer no paraíso.

Meu Deus, que lugar comum terrível e, além do mais, impróprio para se aplicar aos pais; as mães sempre tiveram o monopólio da dor e do sacrifício. Algumas cobram isso de seus filhos com juros e correção monetária.

Deletei rapidamente o chavão e digitei:

O Dia dos Pais foi criado pelos marqueteiros para estimular as vendas.

Marqueteiros ou marketeiros? Existe essa palavra? Fui olhar no dicionário. Não encontrei nenhuma das grafias, mas a edição era muito antiga. Procurei no Google e encontrei: Marqueteiro (ou marketeiro), segundo os principais dicionários brasileiros ("Aurélio" e "Houaiss"), é "pessoa ou profissional do marketing". Mas a Wikipédia teria autoridade linguística? Não tinha em mãos nenhum dos dicionários citados, em edição atualizada, para conferir.

Depois de perder tempo com estas divagações estéreis, deletei... "Deletei" estaria no dicionário? Não, não, sem novas divagações. Deletei porque aquela frase jamais poderia entrar no boletim de uma empresa varejista. A página estava em branco de novo.  

"No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas."

Que frase formidável. Abertura do maior livro de todos os tempos. Mas, continuando por este caminho, até chegar à criação do homem, teria que citar quase todo do primeiro capítulo do Gênesis. Nova tentativa:

Ser pai é partilhar o dom divino da criação

Complicada a palavra partilhar. Quem estaria partilhando: o pai ou Deus? Outra tentativa:

Ser pai é participar do dom divino da criação.

Uma primeira frase razoável. Resolvi tomar outro cafezinho para comemorar. Maria, a copeira estava lavando a louça.

? Vai comemorar o Dia dos Pais, Maria?

? Se ele aparecer.

? Ele está viajando?

? Deve estar. Tem bem uns três anos que ele saiu com uma bolsa dizendo que ia procurar emprego, e até hoje. O Bruno tava com quatro anos e hoje já tá na escola.

Voltei para o computador. Aquela conversa não estava nada inspiradora para quem deveria escrever um artigo louvando a figura paterna. Reli umas cinco vezes a única frase que aparecia na tela, buscando uma maneira de prosseguir. Continuaria por este caminho? Não estaria muito religioso para um boletim interno de empresa? Lembrei-me de ter participado do "Bom dia", atividade diária de comunicação usada pela empresa. Nesse dia, eles terminaram com uma oração. Decidi continuar, mas antes dei um retoque na frase inicial:

Ser pai é participar do divino ofício de criar vida. Criar uma vida humana é muito mais que fecundar uma fêmea.

Epa! Caberia esta frase num boletim de empresa?

Ser pai é participar do divino ofício de criar vida. Criar uma vida humana é muito mais do que aquele primeiro ato de amor. É um querer bem continuado, que é expectativa durante nove meses, espanto quando se ouve o primeiro choro, espera paciente e contemplativa que a simbiose mãe-filho abre brechas para gozar...

Gozar o quê? Como exprimir em palavras a alegria de ter um filho nos braços, sentir seu corpinho quente e macio, aspirar seu cheiro com um azedinho do leite materno? Ver seus movimentos imprecisos, seu olhar vago, no princípio e que aos poucos vai adquirindo brilho e inquietude na ânsia de desvendar a novidade deste mundo. Prossegui, corrigindo o tempo do verbo:

   ... espera paciente e contemplativa que a simbiose mãe-filho abra brechas para se penetrar cuidadosamente, com os pés descalços, naquele terreno sagrado da...

— Mendonça, o diretor está chamando.

Deixei, agora com relutância, o computador.

? Mendonça, recebemos uma colaboração sobre o Dia dos Pais de um empregado e achamos melhor publicá-la. Você pode continuar com a produção do anúncio para o Dia dos Pais.

Fiquei parado, olhando para o diretor.

? Algum problema? Dona Mary, pode fazer a ligação que lhe pedi.

Ildeu Geraldo de Araújo
Ildeu Geraldo de Araújo
Belo Horizonte/MG

Ildeu Geraldo de Araújo

Ildeu Geraldo de Araújo nasceu, em 1938, viveu em Belo Horizonte a maior parte de sua vida. Casado com Maria Nylza, desde 1963, tem cinco filhos e seis netos. Formou-se em engenharia mecânica e elétrica pela UFMG e exerceu seu ofício por vinte e cinco anos na Usiminas, Universidade do Trabalho, Tecnokor. Depois foi consultor e dirigente empresarial por vinte e seis anos. Publicou, pela ARTEAR editora, o livro de contos "Da fortuna de amar" – 2020 e a novela "Terra firme entre as ondas" – 2022, que trata da relação familiar de uma empresária, um sindicalista e a jovem filha do casal no ambiente da ditadura militar e da redemocratização ocorridas no Brasil no século XX. É membro correspondente da Academia de Letras de Teófio Otoni.