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Carona é sempre uma surpresa

Carona é sempre uma surpresa

por Rúbia Scheffer

Carona é sempre uma surpresa

Carona é sempre uma surpresa

Conhecer pessoas é um dos grandes presentes que as viagens nos concedem. Conversar com frequentadores dos restaurantes, prestadores de serviços e vendedores, por exemplo, nos permite conhecer melhor a cultura e os hábitos locais. Quem viaja de carro, como meu marido e eu, ainda tem a vantagem de poder dar carona, seja para um guia, ou mesmo para alguém que levanta o dedão na estrada ou nos aborda em alguma parada. Você deve estar se perguntando: e o risco de assalto? Sim, ele existe, mas nunca fomos contemplados com este tipo de infortúnio.

Ao sul da Chapada Diamantina, na Bahia, quem viajou de graça conosco foi uma dupla que morava num assentamento para famílias sem-terra. Contaram da fome e da miséria que é a vida nas regiões de seca. O cenário ao redor não deixava dúvida sobre o que falavam. O termômetro do carro marcava quarenta e um graus. Idosos sonolentos descansavam em cadeiras, nas varandas das casas, acompanhados por cachorros que, languidamente, cochilavam. Nem as crianças se encorajavam a brincar sob o sol escaldante. A estrada poeirenta, sem uma folha verde nos poucos galhos do que um dia foram árvores, confirmava a triste realidade de quem vive no sertão. De arrepiar, mesmo no calor. Depois de uma meia hora, desceram em frente ao acesso do acampamento onde viviam.

Na Patagônia Argentina, um jovem casal de franceses foi o favorecido da vez. Viajando pela América do Sul há meses, já tinham visitado o Brasil, inclusive a nossa cidade, Florianópolis. Falaram da dificuldade em fazer compras pela internet no nosso país, a exemplo de passagens rodoviárias e aéreas, pois os sites e aplicativos exigem número de Cadastro de Pessoa Física - o CPF. Relataram sobre o desconforto de dormir na barraca com frio muito intenso, sobre trabalhar em troca de pouso e sobre como conseguiam deslocamento, sem custo, com facilidade. Para nós, o complicado foi transitar com eles dentro do veículo. Eram do tipo que não tem o banho por hábito. Os vidros estavam fechados por causa da baixa temperatura do lado de fora, e a ventilação interna não dava conta de renovar o ar do ambiente. Sufoco duplo.

A trinta quilômetros de San Antonio de Los Cobres no noroeste argentino, acolhemos a Dona Inocência na Ruta Nacional 40. O trecho não era pavimentado, a poeira estava inclemente e não se avistava construção alguma nos arredores. Ela caminharia até Los Cobres para participar de uma missa em memória de um filho. Peregrina, disse que estava acostumada a caminhar quatro dias seguidos em procissões que avançavam mais de cem quilômetros para louvar santos e Nossas Senhoras. Quanta fé! 

Contudo, a carona mais curiosa, ocorreu em 2020. Foi no oeste catarinense, após a visita ao belo Salto Saudades, também conhecido como Cataratas de Quilombo. Um senhor se dispôs a nos levar até o acesso a uma prainha do Rio Chapecó, cujas águas alimentam as tais quedas. A distância era pequena e o caminho, que não tinha calçamento, estava embarrado. Estávamos em plena pandemia, não havia disposição de compartilhar o espaço com ninguém, por receio de contaminação. Além disso, não havia lugar disponível. Explico: quando nosso veículo está no modo campervan (equivalente a um mini motor-home sem banheiro), temos somente dois assentos, um para cada um de nós. Ele, percebendo nosso constrangimento, subiu no estribo, se segurou no rack e mandou seguir. Muito gentil da sua parte. No entanto, por uns cinco minutos, a paisagem da minha janela foi encoberta pela barriga desnuda do caroneiro. Deveras embaraçoso!

No fim das contas, as caronas nos proporcionam muito mais do que companhia durante alguns quilômetros. Com elas colecionamos memórias, conhecemos costumes e diferentes maneiras de enxergar a vida. Algumas são emocionantes, outras nos fazem refletir. Tem algumas que ainda podem render boas risadas depois que tudo passa. Afinal, para viajar, é conveniente que se esteja aberto ao inesperado, pois nunca se sabe exatamente quem vai entrar para nossa história. Pode até ser de barriga de fora.

Rúbia Scheffer
Rúbia Scheffer
Florianópolis/SC

Rúbia Scheffer

Nascida em 1964 na cidade de Porto Alegre RS, mora em Florianópolis desde 1998. Viajante e escritora de relatos e crônicas de viagem. É autora dos livros "Atacama - expedição a um novo planeta" (2019) e "Patagônia - reviajando na pandemia" (2025). Já participou de oficinas de escrita com Marcelo Spalding, Zizo Asnis, Daniel Nunes e Juliana Reis. Criadora do perfil @expressotortuga – viajando, devagar e sempre, com a casa nas costas - onde costuma publicar as fotos de suas viagens. Além de seguir se aprofundando na escrita de relatos de viagem, Rúbia está se aventurando na escrita de contos e crônicas.