por Ana Lúcia Rodrigues da Silva
A vida universitária de Sofia estava longe de ter sido o mar de rosas que ela havia imaginado, e as coisas só pioraram depois que terminou a graduação. Viver em São Paulo não era para qualquer um, e ter nascido e crescido em uma fazenda no interior de Goiás também não ajudara muito.
Viver em São Paulo não era para qualquer um, e ter nascido e crescido em uma fazenda no interior de Goiás também não ajudara muito.
Como já esperava, contava com o apoio financeiro dos pais para viver confortavelmente em São Paulo, mas aquilo tinha um preço, como sempre tivera. Seu pai depositava o dinheiro para as despesas e alugara pessoalmente o flat na Rua Alagoas, bem em frente à faculdade. Para muitos colegas, aquilo era uma mordomia, para Sofia, uma tirania.
Ela tentou morar em uma república, alugar um apartamento com amigas e até trabalhar em uma boutique sofisticada de Higienópolis, mas tudo foi vetado.
— Você está aí para estudar, minha filha. Então estude! — dizia o pai, enquanto a mãe permanecia calada.
A esperança de uma vida universitária plena acabou se revelando uma ilusão. Não apenas por culpa do pai, mas também pelas dificuldades da própria cidade. Não era viável atravessar São Paulo para ensaiar com a bateria ou participar dos jogos universitários. Sua rotina acabou reduzida ao percurso entre o flat, a FAAP e as baladas, e os anos voaram.
Amores não faltaram, embora nenhum tivesse sido sério ou duradouro. Sempre que voltava a Goiás, o pai fazia questão de apresentar o filho de algum amigo, colega ou vizinho, na esperança de que a filha criasse raízes no estado. Sofia saía para jantar, dançar e conversar, mas enquanto sua lista de pretendentes só aumentava, o entusiasmo, não.
No último ano da faculdade, conseguiu um trabalho cobrindo notícias internacionais para o blog de uma jornalista influente. Não era o emprego dos sonhos, mas gostava de aprender e, principalmente, de ter algum dinheiro próprio. Ao mesmo tempo, começou a estudar para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, o CACD, pois queria seguir carreira no Itamaraty.
Pela primeira vez, Sofia tinha um plano que poderia ser de fato exclusivamente seu.
O pai tentou ajudá-la, como sempre, oferecendo contatos e possibilidades em empresas ligadas ao comércio exterior. Cada tentativa a deixava ainda mais irritada, pois, segundo ela, ele nunca entenderia o que um profissional de Relações Internacionais realmente fazia.
As frustrações começaram a se acumular. No trabalho, percebia uma preferência pelos colegas homens, algo que incomodava especialmente as duas únicas mulheres da equipe. Na vida pessoal, já estava cansada de repetir que não queria nada sério, embora às vezes suspeitasse que estivesse apenas tentando convencer a si mesma.
A confirmação veio no casamento de uma colega. Ao vê-la entrar na igreja vestida de noiva, Sofia sentiu os olhos arderem e não conseguiu segurar as lágrimas. Não chorava apenas pela felicidade da amiga, mas pela falta que sentia de poder desejar aquilo também.
Naquela noite, deitada na cama do flat, ficou olhando para o teto durante horas. Talvez tivesse passado tanto tempo tentando provar que não precisava de ninguém que esquecera de perguntar a si mesma se era isso que realmente queria. O pior não era estar perdida, mas não enxergar nenhum caminho que realmente a atraísse.
No dia seguinte, sexta-feira à tarde, saiu o resultado do CACD. Sofia atingira a nota mínima, mas ficara abaixo da nota de corte. Sem um plano B, Sofia despediu-se dos colegas e voltou para o flat. No caminho, tomou uma decisão: faria um sabático. Precisava parar, repensar sua vida e sua carreira e descobrir se o caminho que escolhera realmente era seu.
Chegando no flat olhou para a tela do computador e depois para os livros espalhados sobre a mesa. Meses de estudos, anotações e expectativas pareciam ter perdido o sentido. Brasília, pelo menos por enquanto, estava fora do seu horizonte.
Sofia decidiu usar as milhas acumuladas e ir para Goiânia. De lá, iria para a fazenda contar aos pais. Nem foi necessário alugar um carro. Seus pais estavam esperando por ela no aeroporto. Depois dos abraços e beijos, seguiram juntos para a fazenda, conversando apenas sobre assuntos gerais, a família e os irmãos, que estavam no Mato Grosso em uma exposição de gado.
Apesar das saudades, Sofia sentiu um alivio. Já estava acostumada ao olhar de desaprovação dos irmãos, que, segundo eles, trabalhavam como escravos para aumentar a herança de todos. Sabia que não seria fácil falar sobre o sabático.
Depois do jantar, respirou fundo e decidiu começar.
— Papai, mamãe... não vou mentir para vocês. Vim sem combinar porque precisava conversar sobre algumas coisas e alguns planos que gostaria de levar adiante.
— Venha sentar aqui, Sofia — disse Laura, abrindo espaço ao seu lado. Como sempre, seu pressentimento de mãe não falhava.
Sofia se sentou.
— Diga, minha filha.
Germano, da outra poltrona, perguntou:
— Saiu aquele resultado de Brasília que você estava aguardando? Qual é a mudança dessa vez?
Sofia baixou os olhos.
— Não passei.
Começou a chorar.
— Eu queria muito, pai. Tinha esperança de conseguir a carreira no Itamaraty.
Laura apertou sua mão.
— Esse concurso não pode ser prestado novamente?
— Claro que pode — respondeu Germano. — O problema é que essa menina daqui a pouco faz trinta anos e continua sem eira nem beira. Culpa sua, Laura, que me fez concordar com essa carreira que ninguém sabe direito o que faz.
Sofia não respondeu. Apenas chorou.
Laura olhou para o marido e depois para a filha.
— Se você veio de São Paulo até aqui, é porque tem alguma ideia em mente e quer o nosso apoio, certo?
Sofia assentiu.
— Quero fazer um sabático e repensar minha carreira.
— Sabático? — Germano quase gritou. — Isso é coisa de rico que já trabalhou bastante. Você não é rica, Sofia. É filha de rico, e até agora não trabalhou nada!
— Germano, esses são modos de falar com nossa filha — interveio Laura.
Sofia enxugou as lágrimas.
— Mãe, o pai tem razão, mas eu sei quanto custa. Trabalho desde o último ano da faculdade e guardei praticamente tudo o que ganhei.
— Para quê? — perguntou Germano.
— Para viajar. Quero fazer um mochilão.
— Mochilão? Sofia, você acabou de se formar.— gritou Germano.
— Justamente. Quero conhecer o mundo. Talvez isso me ajude a descobrir o que quero.
— E para onde seria esse mochilão?— perguntou Laura.
— Europa primeiro. Depois, um passo de cada vez.
— De carona na boleia de caminhão?— questionou Germano.
— Se eu tivesse mais recursos, faria diferente. Mas é o que dá. E todo mundo da minha idade faz isso!
— Não faz. Seus dois irmãos estão trabalhando. Agora mesmo estão no Mato Grosso comprando gado para engrossar a herança de todos.
Sofia levantou-se.
— Eu não sou eles!
Germano se calou. Laura, então, levantou-se, foi até o marido, deu-lhe um beijo na testa e voltou-se para a filha.
— Sofia, acho que entendi. Você quer conhecer o mundo porque precisa descobrir se a profissão que escolheu para sua vida é realmente o que deseja. E está decepcionada porque seus planos para o Itamaraty não se concretizaram.
Sofia assentiu.
Laura prosseguiu:
— Acho razoável que você aproveite esse momento para construir uma experiência internacional. Um profissional de Relações Internacionais precisa conhecer diferentes culturas, territórios e realidades. Mas concordo com seu pai em uma coisa: isso precisa ser seguro e planejado.
Sofia conhecia a mãe. Sabia que ela estava prestes a transformar uma ideia absurda em algo perfeitamente possível.
Germano, entretanto, ainda não havia entendido.
— Desembucha, mulher.
Laura sorriu.
— Sofia, sugiro que você faça uma viagem de volta ao mundo.
— O quê?
— Uma viagem com data para começar e data para terminar. E sugiro que seja de navio. Você estará sozinha, e em um bom cruzeiro terá segurança, atendimento médico e toda a estrutura necessária.
Sofia franziu a testa.
— Mas eu quero liberdade.
— Eu entendi. Você terá aproximadamente quatro meses para conhecer diferentes continentes, praticar idiomas e ampliar sua visão de mundo. Depois, volta.
— E faço o quê?
— Arranja um emprego. Retoma os estudos para o CACD, se ainda quiser, ou escolhe outro caminho.
Germano cruzou os braços.
— Nesse caso, você vai trabalhar.
Sofia olhou para a mãe.
— Não tenho dinheiro para uma viagem dessas.
Laura sorriu.
— Nós temos. Você usa o seu para os extras. A viagem será um presente meu.
Germano levantou uma sobrancelha.
— E o que eu falo para os meninos?
— Nada. O presente é meu. Se eles tiverem alguma reclamação, que falem comigo.
Germano ficou alguns segundos em silêncio antes de concordar com um aceno.
Sofia ainda tentava processar tudo.
— Mãe, você está falando sério?
— Muito.
Pela primeira vez desde o resultado do concurso, alguma coisa parecia se abrir diante dela. Não sabia se queria ser diplomata, se queria voltar para São Paulo ou mesmo o que estaria fazendo dali a um ano. Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia duas coisas que queria descobrir.
O mundo. E principalmente, a si própria.
— Depois você me explica melhor esse presente?
Laura assentiu e sorriu.
E com essa bagagem embarcou no mesmo cruzeiro de Bárbara e isso fez toda a diferença.

Graduada em Física pela UNESP (1986), Mestrado e Doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (1992 e 1998), onde também realizou o seu primeiro Pós-Doutorado finalizado em 2009. Pós-doutorada também na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (2011). Sócia da empresa Sinerconsult - Consultoria, Treinamento e Participações Ltda, onde realiza trabalhos de consultoria e pesquisa nas áreas de energia e hospitalidade, com ênfase em gestão estratégica, otimização de processos, planejamento, pesquisa de mercado, perfil e comportamento do consumidor, comunicação e marketing. É professora do MBA Gestão de Riscos na Comercialização de Energia USP/CCEE. Autora de vários livros, onde se incluem Monografia Fácil, Marketing Energético, Comportamento do Consumidor de Energia Elétrica, Cruzeiros Marítimos (2017) e Cruzeiros: Empresas, Itinerários e Experiências (Synergia, 2023). Entre 2021 e 2025 realizou o seu terceiro pós-doutorado, no Departamento de Metrologia, Qualidade, Inovação e Sustentabilidade da PUC Rio, onde se especializou na indústria de cruzeiros.
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