por Ana Lúcia Rodrigues da Silva
Philip é um inglês apaixonado pelo mundo, por sua cultura, sua comida, suas comunidades isoladas e sua natureza ainda bruta. Embora viva em Londres, seu verdadeiro refúgio sempre esteve no mar e nos lugares que dele se alcançam. Cada viagem, cada encontro e cada experiência encontram espaço em seus quadros, uma terapia que descobriu para lidar com a solidão, que, insistente, teima em fazer morada. Aos 95 anos, Philip continua sendo um jovem em sua essência, ainda curioso, disposto a aprender, conhecer lugares e, sobretudo, pessoas. Foi o destino que o aproximou de Bárbara, em Portside. E isso fez toda a diferença.
Conto 9 – Philip e a cumplicidade que se desfazia
Philip já estava aguardando Sarah desde as cinco da tarde para tomarem o chá juntos e compartilharem as novidades do dia. Ele havia saído cedo e não voltara para o almoço, pois naquele dia encontrara um colega de faculdade que não via havia décadas.
Ao chegar em casa, percebeu imediatamente a ausência de Sarah. Era dia de consulta médica, ela já havia avisado, e Philip não perguntou muito. Check-ups faziam parte da rotina de ambos já octogenários e não havia motivo para preocupação. Ainda assim, a ausência dela no horário do chá o surpreendia. Sarah não gostava de estar fora ao anoitecer e, em Londres, no inverno, a noite chegava cada vez mais cedo.
Sua inquietude foi interrompida pelo celular.
— Sr. Philip, George, da mercearia. Boa noite!
— Boa noite, George. Sarah encomendou alguma coisa que preciso buscar?
Houve um pequeno silêncio.
— Não, Philip. Na verdade, ela está aqui. Eu a vi passando algumas vezes em frente à mercearia e a convidei para entrar. Está frio e há pouco começou uma garoa fina. Philip... alguma coisa me diz que ela não se recorda do caminho para casa.
— Estou indo, George.
Philip desligou, pegou o casaco e saiu apressado, percorrendo os dois quarteirões que separavam a mercearia de suacasa.
Não era a primeira vez que percebia Sarah confusa. Nas últimas semanas, pequenas coisas haviam começado a acontecer: uma panela esquecida no fogo, as chaves guardadas em lugares improváveis, perguntas repetidas durante a mesma conversa. Sempre havia uma explicação: uma dor de cabeça, uma preocupação, uma distração. E Sarah sorria, fazia uma brincadeira e seguia em frente. Philip fazia o mesmo, talvez porque admitir que havia algo diferente fosse mais assustador do que fingir que não havia.
Logo avistou a mercearia. Sarah estava sentada em um pequeno banco ao lado do balcão, enquanto George, alguns passos distante, parecia respeitar seu silêncio.
— Sarah, minha querida...
Ela levantou os olhos.
Por um instante, não houve reconhecimento. Philip sentiu a pausa como uma dor aguda, mas não perguntou se ela sabia quem ele era. Apenas puxou outro banco, sentou-se ao lado dela, tomou sua mão direita entre as suas e a beijou.
— Vamos para casa, querida. Temos um chá nos aguardando.
Sarah olhou para as mãos entrelaçadas e depois para ele. Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto. Ela se levantou, segurou o braço que Philip lhe oferecia e saiu com ele.
A garoa continuava fina e fria quando caminharam de volta para casa, aquela mesma casa que havia testemunhado quase toda a vida dos dois: as fotografias das viagens de cruzeiros, os livros, o velho Atlas de Philip e as inúmeras lembranças acumuladas ao longo de décadas.
Philip e Sarah nunca tiveram filhos. Talvez nunca os tivessem desejado.
— Para quê? — perguntava Sarah. — Se tudo o que eu preciso eu já tenho com você?
Dizia isso com o mesmo charme e a mesma sinceridade do inicio do casamento, e Philip concordava.
Os anos passaram, as décadas de casamento se acumularam e aquela certeza permaneceu. Ambos construíram carreiras sólidas. Philip era estatístico, enquanto Sarah trabalhava na universidade, na área de atendimento aos alunos estrangeiros. Enquanto ele se desafiava com números, ela convivia diariamente com estudantes vindos dos mais diferentes lugares do mundo.
A cada jantar, Philip gostava de ouvir as histórias que Sarah trazia da universidade. Ela falava sobre os sotaques, os costumes, as dificuldades de adaptação e os países de onde aqueles jovens haviam vindo. Depois, quase sempre, Philip pegava seu antigo Atlas e pedia que ela mostrasse onde ficavam aqueles lugares.
Uma história levava a outra, uma cidade despertava uma nova curiosidade e, antes que percebessem, Sarah acrescentava mais um destino à lista de lugares que queriam conhecer.
Agora, porém, Sarah estava escapando. Não de uma vez, mas um pouco a cada dia. Primeiro foram as pequenas coisas, depois os nomes, os lugares e, mais recentemente, algumas das histórias que haviam construído juntos.
Ao chegarem em frente à casa, Sarah não fez qualquer movimento para entrar.
— Chegamos, querida.
Ela olhou para a porta sem nenhum movimento em direção a ela.
— Vamos, querida.
Ela o acompanhou com um sorriso tímido.
Ao entrar, Sarah sorriu e caminhou até a cozinha sem hesitar, abriu o armário e passou os dedos pelas pequenas caixas de chá. Escolheu uma, virou o pacote nas mãos e perguntou.
— Lemon & Ginger?
Philip se aproximou.
— Lemon & Ginger.
Ela o olhou por alguns segundos.
Philip se aproximou, colocou a mão sobre seu ombro e a abraçou.
E foi assim que, naquela noite, os dois tomaram o mesmo chá de tantas outras tardes. Talvez Sarah já não lembrasse de todas as viagens, das histórias ou sequer do homem que a abraçara, mas ainda reconhecia aquele sabor.
Por enquanto, era o suficiente.

Graduada em Física pela UNESP (1986), Mestrado e Doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (1992 e 1998), onde também realizou o seu primeiro Pós-Doutorado finalizado em 2009. Pós-doutorada também na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (2011). Sócia da empresa Sinerconsult - Consultoria, Treinamento e Participações Ltda, onde realiza trabalhos de consultoria e pesquisa nas áreas de energia e hospitalidade, com ênfase em gestão estratégica, otimização de processos, planejamento, pesquisa de mercado, perfil e comportamento do consumidor, comunicação e marketing. É professora do MBA Gestão de Riscos na Comercialização de Energia USP/CCEE. Autora de vários livros, onde se incluem Monografia Fácil, Marketing Energético, Comportamento do Consumidor de Energia Elétrica, Cruzeiros Marítimos (2017) e Cruzeiros: Empresas, Itinerários e Experiências (Synergia, 2023). Entre 2021 e 2025 realizou o seu terceiro pós-doutorado, no Departamento de Metrologia, Qualidade, Inovação e Sustentabilidade da PUC Rio, onde se especializou na indústria de cruzeiros.
+ clique aqui e assine a minha newsletter