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Coração de elefante

Coração de elefante

por Rosane Rubinstein Pagliuca

Coração de elefante

A menina entrou agarrada à saia da mãe. O choro vinha aos soluços. Ao ver o jaleco branco, escondeu o rosto.

O médico permaneceu sentado.

— Ainda bem que você chegou. Estou precisando de ajuda.

Ela não respondeu.

Havia um pequeno elefante de pelúcia sobre a mesa.

— Ele não deixa ninguém escutar o coração dele.

A menina espiou.

— Nem você?

— Nem eu.

Ela deu dois passos, pegou o estetoscópio e o encostou no peito do elefante.

— Escutei.

— Então me ensina.

Ela fez o mesmo nele.

— Agora respira fundo, igual ao elefante.

Enquanto ela respirava, ele ouviu seu peito, afastou uma mecha de cabelo e examinou um ouvido, depois o outro.

— Mostra a língua.

Ela mostrou.

A enfermeira entrou.

— Segura a pata dele para mim — disse o médico. — Ele foge quando fica nervoso.

A menina apertou a pelúcia.

Os dedos apertaram a pata um pouco mais forte.

— Não deixa ele fugir.

Ela continuou olhando para o elefante.

Ao afrouxar a mão, viu o curativo no braço, tornou a encostar o estetoscópio no peito do elefante e, antes de ir embora, abraçou a pelúcia.

Rosane Rubinstein Pagliuca
Rosane Rubinstein Pagliuca
São Paulo/SP

Rosane Rubinstein Pagliuca

Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.