por Camila de Miranda
Eu deveria estar feliz.
É o que se espera de uma mulher em um lugar como este, diante de um gesto assim.
Mas sempre há algo errado quando tudo parece perfeito demais.
O claustro do Mont-Saint-Michel estava cheio de turistas — passos, flashes, risadas abafadas.
Um guia falava em italiano sobre a estrutura leve de granito sustentada pela dupla fileira de colunas esguias. Outro explicava em inglês por que as pequenas flores brancas que cobrem o jardim central se chamam "margaridas". A sobreposição de línguas, todas as quais eu entendia, era sufocante.
E, no entanto, quando ele se ajoelhou, tudo desapareceu. Como se alguém tivesse colocado o mundo no mudo.
Ele realmente se ajoelhou.
Ali, entre duas colunas, com o mar visível ao longe pelas aberturas.
O anel, a pergunta, meu nome pronunciado com uma atenção quase sagrada. Com o sotaque certo.

E eu, paralisada.
Como se a cena não me pertencesse.
Como se eu a estivesse vendo de fora.
Respirei fundo, tentei acalmar o ritmo do coração.
Os turistas aplaudiram. Depois se calaram e esperaram, quase mais nervosos que o homem ajoelhado à minha frente. Tentei pensar com clareza. Mas meus pensamentos vieram em forma de cenas.
Imaginei o que aconteceria se eu dissesse não.
Vi o rosto dele tentando manter a dignidade.
Vi os turistas filmando contra a vontade, o constrangimento visível nos rostos.
Vi nós dois fingindo que estava tudo bem ao deixar o lugar, como se tivesse sido só um mal-entendido. E depois, o trem. A distância. O vazio. A certeza de que eu talvez tivesse deixado ir embora alguém bom.
Mas... e se eu disser sim?
Vi meu sorriso trêmulo, minhas mãos pegando o anel, mas hesitando antes de colocá-lo.
Os abraços. A foto de lembrança.
As mensagens chegando no meu celular: "Vocês são perfeitos juntos."
As semanas seguintes cheias de preparativos, decisões, listas.
E, em algum momento, à noite, sozinha, olhei para o anel e me perguntei: por que, afinal, eu tinha dito sim?
A verdade é que nenhuma das cenas me convenceu.
Nem o não, nem o sim.
Os dois traziam um risco.
Os dois me assombravam.

Respirei fundo.
Olhei ao redor.
A realidade voltou em fragmentos: o barulho de um salto na pedra, uma criança correndo, o flash de uma câmera que me ofuscou por um instante.
Mas nada realmente me distraiu.
O mundo inteiro pareceu prender a respiração. E então, incapaz de esconder a dúvida na voz, eu disse:
— Sim.
Uma pausa. E os turistas responderam em coro:
— Aww! How cute, si mignons, que fofos, molto carini.
Uma salva de palmas estourou.
Pisquei os olhos e o anel já estava no meu dedo.
Ele me envolveu num abraço.
E naquele abraço, cercada de gente, de barulho, de dúvidas, senti, pela primeira vez, uma forma de paz.
Talvez não seja uma questão de certezas.
Talvez o verdadeiro amor seja só isso: alguém disposto a segurar sua mão, mesmo quando você não sabe muito bem onde está pisando.
Tentei me convencer disso, enquanto aquele vazio me invadia lentamente. Aquele vazio que me pareceu quase um presságio.
Estendi a mão em direção ao jardim, tirei uma foto com o celular e enviei uma mensagem.
— Mãe, estou noiva.
As fotografias que acompanham este texto são de minha autoria

Camila de Miranda é escritora brasileira radicada na França desde 2021. Formada em Engenharia Ambiental e de Segurança, construiu uma trajetória que concilia a atuação profissional com a criação literária. Em seus contos e romances, explora as relações humanas, suas contradições e a imprevisibilidade do cotidiano, em narrativas que transitam entre o drama e o humor.
Seus textos combinam realidade e ficção e já foram publicados em revistas literárias, entre elas a revista lusófona Etcetera. Em 2025, venceu o concurso literário Renaissance, promovido pela BoD França e pela Panodyssey. Concluiu a Formação de Escritores da Editora Metamorfose e integra a União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (UEELP).
Seu primeiro romance, Aos meus queridos ossos, será publicado pela Editora Metamorfose. Na obra, aprofunda seu interesse pelos vínculos familiares, pela memória e pelas contradições humanas.
Além da literatura, sua trajetória acadêmica e profissional na França a levou a desenvolver projetos de orientação para brasileiros interessados em estudar na Europa.