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FÚRIAS

FÚRIAS

por Luana Real

No enterro da minha esposa, fui recebido por um corvo pousado no galho baixo de uma árvore. Ao chegar, acompanhado de meu filho, ele virou seu bico entortado para o lado e mirou seu olho negro na minha direção. Em frente ao caixão, prestes a ser entregue à terra, acompanhei o rito fúnebre sentindo-o me queimar a nuca. Insistente. Conspiratório. Não tive coragem de encará-lo quando fui embora, mas comigo ele permaneceu.

A vida precisava seguir. Despachei Tiago de volta para o colégio interno. Me ocupei das funções cotidianas no escritório. No entanto, a ave maldita estava sempre lá, me observando, sem nenhum pudor, em qualquer espaço aberto. Eu a via em lajes, postes, troncos... por todos os lugares. Já me doía o estômago andar, pelas ruas cinzentas, oprimido pela sombra escura a me acompanhar em segundo plano.

Nem no meu lar tive paz. O corvo encontrou pouso nos galhos do carvalho plantado por Lúcia, no terreno de nossa casa, logo após o casamento, há 28 anos. Tratava-se de uma árvore robusta, de uns doze metros de altura, com uma casca cinzenta marcada por fissuras verticais profundas que lembravam cicatrizes antigas. Seus galhos pesados se sustentavam horizontalmente antes de se curvarem para o céu. Seu primeiro filho, dizia ela com ridículo apego por uma planta.

Dali, ele acompanhava minha intimidade. Eu o enxotava. De nada adiantou. Continuava a me vigiar, de cima, soberbo em sua morada. Quando o peguei me encarando, pela milésima vez, lhe arremessei uma pedra que acertou sua cabeça, em cheio, e o levou ao chão. Observei, vitorioso, sua garra espásmica parar de mover. Me recolhi satisfeito.

A partida de Lúcia havia deixado um rombo em minha vida. Não sei o que estava mais vazio, o meu estômago ou a casa. Sem ela, o caos ameaçava entrar comigo, pela porta da frente, todas as vezes em que eu torcia a chave na fechadura. Por isso, resolvi contratar funcionários domésticos: faxineira, cozinheira, jardineiro, até folguista. Rios de dinheiro em novos gastos recorrentes? Sim, mas eu não poderia me importar menos. A engrenagem voltou a correr azeitada.

No entanto, poucos dias depois, a ave voltou. De peito estufado, assumiu sua posição de vantagem no carvalho. Exibia um olho esbranquiçado, aquele onde a pedra a acertou. Tenho certeza, ora se não, de que estava orgulhosa em me esfregar na cara a prova indelével do meu ataque. Sem cerimônia, retomou sua vigília silenciosa. Aquele corvo... ele me julgava.

Como marido, não fui dos melhores, reconheço. E, de alguma forma, ele sabia. Minhas exigências quanto ao lar, as ausências, o descaso em relação às necessidades afetivas da minha esposa. Porém, eu compensava meus erros. Isso ninguém pode negar. Dei do bom e do melhor àquela mulher. Arquei, sem reclamar, com qualquer capricho e com toda a ajuda que ela precisava para aguentar o rojão da vida.

Já eu, era feliz. Não me incomodava o afastamento conjugal. No fim das contas, os papéis eram devidamente cumpridos perante a sociedade. Ficávamos bem na foto. Provi, cumpri os deveres básicos. Me bastava a liberdade de estar nos meus compromissos pessoais e de trabalho, sem perturbações, e, claro, a companhia de Amanda. Ela era leve, dona de um sorriso contagiante e do corpo durinho que uma mulher só consegue manter antes dos 30 anos.

Quando tudo ficou em ordem novamente, corri para sua cama. Apenas para dar de cara com ele, o corvo com um olho de cada cor, parado bem em frente à janela do quarto. Fechei a cortina e o demônio se pôs a grasnar. O pesado tecido, capaz de manter o mundo alheio às minhas indiscrições, não era suficiente para afastar sua presença.

Não teve jeito, brochei. A crítica cortante do ser emplumado me tirou a concentração. Minha última noite com a moça havia sido roubada. Pois, enquanto eu fumegava de ódio em seus braços condescendentes, ela fazia planos para o futuro. Nosso futuro. Então, entendi. Sem Lúcia, não havia espaço para Amanda. Ela não se tornaria a nova senhora do meu castelo recém conquistado e, agora, tratado de acordo com o meu gosto; sem reclamações ou carências.

Acredito ter acumulado o segundo carma de uma mulher possessa comigo. Assim como minha amante, Lúcia também partiu furiosa. Tudo por causa da educação de Tiago. Esse foi o ponto de não retorno na nossa relação.

Apesar de eu ter decidido, sem lhe dar oportunidade de opinar, achei que ela se adaptaria ao afastamento do filho. Como não entendia ser o melhor para ele estudar em uma escola de elite só para meninos? Azar que fosse um internato! Ou sorte, porque tornava o dia a dia bem mais tranquilo e ele não deixava de ficar conosco nas horas vagas. Quer dizer, com certa frequência. Estava tudo certo, mas não para minha esposa. Ela precisava daquela criança como ar.

E, com sua expressão inteligente, o ser infernal deixava claro estar anotando tudo a meu respeito. O animal não se disfarçava. Pelo contrário, fazia questão de marcar seu ponto, surgindo como se feito do nada. Implacável, nem a minha visão periférica abandonava. Por causa dele, Lúcia não saía dos meus pensamentos, como clarões de memória tortuosos que me atravessavam a mente, a cada avistamento do meu perseguidor.

Dada tamanha pressão, minha tolerância acabou. Tinha chegado a hora de pôr fim naquele tormento. Paguei uma boa grana para uma empresa fazer vista grossa em relação às permissões que eu não possuía e derrubar o carvalho vintenário. Naquela noite, dancei gargalhante em volta do toco de madeira que havia ficado no seu lugar.

Porém, o bicho não arredou o pé. Fui surpreendido por sua figura empoleirada na beirada da janela da cozinha, ao entrar para tomar café da manhã. Soltei um grito. O que não o afetou. Me aproximei. Ele não se incomodou. A audácia com que me desafiava fez subir o gosto de bile na garganta. Movido por instinto, o agarrei pelo pescoço, com as duas mãos, e apertei até ouvir o estalar dos ossos se quebrando. Joguei o corpo inerte no lixo. Pensei estar tudo acabado.

Mais tarde, depois de um dia inteiro sem o vulto escuro pairando ao meu redor, cheguei contente do trabalho. No entanto, fui surpreendido por um som não natural. Algo similar a um assobio longo que terminava sem fôlego me atraiu até os fundos. Não podia ser! Era impossível, mas, eu juro que, sobre o toco, estava o corvo com um olho esbranquiçado e um anel de penas brancas ao redor do pescoço. Meu sangue congelou e os pelos da minha nuca se arrepiaram, enquanto eu dava passos lentos para trás, tentando processar aquela aparição.

Foi então que o reconheci. Era o mesmo corvo que havia grasnado por três vezes na última vez em que vi Lúcia com vida. Ela tomava vinho sentada no gazebo rústico do quintal, espaço que havia sido projetado por ela. Era uma noite úmida. A névoa empalidecia a zona de floresta para além do muro, no fundo da propriedade, e abraçava o antigo carvalho.

Ela devia estar em sua terceira garrafa. Discutíamos. Era a mesma ladainha de sempre. Sentia falta do menino. Queria buscá-lo. Eu não aceitei, afinal, tínhamos compromissos naquele final de semana. Até que, de maneira inédita, ela se levantou e tentou pegar as chaves do carro, decidida a ir contra a minha vontade.

Eu a impedi. Estava bêbada e ridícula, gritei. Enrubescida pelo álcool e pelo choro, me deu um bofetão. Eu sabia que ela não estava em condições de andar em linha reta, quanto mais dirigir até outra cidade, mas, na raiva, joguei as chaves sobre a mesa. "Vá. Pega aquele moleque mimado e coloca debaixo da sua asa. Que se danem vocês!". Em instantes, ouvi o carro arrancar da garagem.

Antes que pudesse chegar no colégio, em uma curva sinuosa, Lúcia colidiu com uma barreira na estrada, ao tentar ultrapassar outro motorista em alta velocidade. Já estava morta quando o socorro chegou. Recebi a notícia de um pesaroso policial que segurava seu quepe na frente do peito. E, naquele momento, o corvo se anunciou, pela primeira vez, com seus gritos esganiçados.

Apavorado, questionei minha sanidade. Fui à janela diversas vezes, a criatura continuava lá. Atormentado pela ave que havia testemunhado o meu maior crime, passei a não sair de casa. Mantinha tudo fechado. Pouco via a luz do sol. Ela tinha se empoleirado no que sobrou do carvalho e, enfim, abandonou o silêncio. Começou a me angustiar com seus sibilos acusatórios.

Perdi a noção do tempo em que vivi nesse estado. Me vi no espelho com as pupilas dilatadas, grandes círculos escuros ao seu redor e a pele anêmica. O sono vinha acompanhado de pesadelos que me faziam acordar suado e aos berros. Perdi peso. Perdi a lógica. Perdi o juízo.

Certa noite, já era demais. Peguei um facão na cozinha e, pela primeira vez desde o nosso último encontro, me aventurei rumo ao quintal. Eu estava de pijama e pés descalços. Senti a grama pinicar os meus dedos, a terra enlamear minha pele. Ainda assim, fui determinado até a ave que não fez sequer menção de se afastar. Essa seria sua última injúria.

Com uma mão, a segurei de costas sobre o toco. Ela não resistiu, apenas emitia aquele terrível assobio longo, forçoso e sem fôlego. Levantei o facão e o desci sobre o animal. Arranquei-lhe, uma a uma, as asas, as patas e o rabo. Eu queria que ela sofresse, agonizasse. Ver a vida se esvaindo acompanhada de seus gritos desgraçados. A madeira ficou empapada com o líquido viscoso que escorria do seu corpo. Por fim, dei o último golpe. Foi-se a cabeça.

Ri, maníaco, com a roupa e o facão vermelhos, aspirando o doce cheiro ferroso de sangue fresco. Esfreguei as mãos molhadas contra meu peito e senti o tecido úmido, ainda quente, grudar na minha pele. Só que eu não tinha acabado. Não daria sorte para o azar, dessa vez. Enterrei cada pedaço da criatura em um buraco bem fundo na terra e longe um do outro.

Tirei a roupa imunda. A queimei na lareira. Tomei um banho de horas. Limpei cada vestígio da minha libertação violenta e, então, caí em um sono profundo que não experimentava havia semanas.

O dia seguinte amanheceu ensolarado. Abri todas as janelas da casa permitindo que uma brisa fresca percorresse os cômodos. Me servi uma xícara de café. Antes de dar o primeiro gole, aproximei o nariz e inspirei o aroma da torra colombiana. Meu preferido.

Para selar o meu triunfo, abri, com vontade e um sorriso largo estampado no rosto, a porta dos fundos. Assim que pisei para fora, me deparei com eles. Sete corvos, saltitando na grama. Assim que me viram, começaram a grasnar em uníssono, cada vez mais alto, e sem parar.

Luana Real
Luana Real
Rio de Janeiro/RJ

Luana Real

Luana Real é carioca, advogada e escritora. Teve contos publicados em coletâneas e, no momento, tem o projeto para o lançamento do sua primeira antologia solo. Desde o ano passado, está se especializando em roteiro para o mercado audiovisual, com alguns de curta-metragem prontos para serem produzidos. Fascinada por arte, em todas as suas manifestações. Por meio do absurdo, do desconfortável, do sombrio e de símbolos, explora a natureza humana em seus trabalhos. Seus gêneros favoritos e aos quais se dedica são: terror, thriller, fantástico e realismo mágico. Com alguns respiros para autoficção.