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Horas de angústia

Horas de angústia

por Rúbia Scheffer

Horas de angústia

Horas de angústia

A filha encerra a ligação. Carla reflete sobre as últimas palavras: 

? Marina, você precisa se cuidar e perder alguns quilos, já engordou de novo depois que saiu de casa. Isso não é elegante.

? Mãe, eu já tenho 25 anos, sei o que é bom pra mim.  

Sabia que tinha tocado num assunto delicado entre elas. Como se falavam diariamente, em menos de 24 horas poderia pedir desculpas e se retratar.

O dia seguinte iniciou normalmente e às nove horas já estava no escritório. Abriu a pasta que continha um processo envolvendo a guarda de uma adolescente por ocasião da separação de um casal. A menina também se chamava Marina. Desde a conversa da noite anterior, sentia um aperto no peito sem explicação e não havia parado de pensar na filha. Reconhecia que precisava mudar sua postura e deixar Marina com mais liberdade. Tentou ler algumas laudas, mas estava com dificuldade de concentração. Suspirou e resolveu dar um tempo.

O aroma do café recém passado a atraiu para a cozinha. Uma pequena televisão, que ficava sempre ligada naquele ambiente, transmitia o Castelo Ra-Tim-Bum, um dos programas de que Marina mais gostava quando criança. Conseguiu até sorrir diante de algumas cenas e, quando estava lavando sua xícara para voltar ao trabalho, a emissora interrompeu a programação para uma notícia urgente:

"Na manhã desta terça-feira, quatro aviões comerciais americanos foram sequestrados na costa leste do país. Dois deles foram lançados contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. O terceiro foi arremessado contra o Pentágono, na Virgínia, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Menos de meia hora depois, o quarto avião sequestrado caiu em um campo aberto nos arredores da Pensilvânia."

? Carla, Carla, acorda, por favor!

Despertou ouvindo seu nome e sentindo a umidade da toalha que passavam em seu rosto.

? Minha filha...

Foi tudo o que conseguiu dizer antes de desmaiar outra vez. A levaram para o sofá da recepção. Quando recobrou os sentidos, sentou-se, ajeitou os longos cabelos negros e sedosos, ajeitou a camisa e a saia que haviam ficado desalinhadas e vestiu os sapatos que lhe haviam tirado.

? Marina, preciso notícias da Marina.

Carla foi até sua sala. Com as mãos trêmulas, deixou seu Nokia cair no chão. Caminhando de um lado para o outro, ficou mais de hora tentando contato, mas o telefone do escritório onde a filha estagiava não emitia sinal algum. Sabia que não era no World Trade Center, mas em Manhattan que ela trabalhava, o que justificava seu pavor. Ligou na república onde Marina estava hospedada havia dois meses, também não obteve nenhum sinal.

Voltou para a cozinha, onde os demais colegas se amontoavam para ver as notícias. Já sabiam que havia sido um atentado terrorista e que o sistema de comunicação estava em colapso. Insistiu ligando do telefone fixo. Lembrou da conversa mal-acabada com a filha, ficou ainda mais abatida. O suor lhe escorria pela nuca, mesmo com o ar-condicionado ligado nos 23 graus, temperatura que ela sempre reclamava ser fria demais. Já havia prendido os cabelos com uma piranha, o que nunca fazia em ambiente profissional. Tentavam acalmá-la, mas nenhum argumento seria suficiente.

Os colegas se revezaram no intervalo de almoço, para não deixa-la só, e trouxeram uma quentinha para ela. Entretanto, não conseguia nem beber água. Enquanto isso, seguia buscando contato, sem sucesso. Tentaram o consulado americano e o Itamaraty, todas as linhas estavam ocupadas.

Os plantões de notícias da TV seguiam informando que a área de Manhattan estava coberta por uma densa nuvem de fumaça tóxica, poeira e escombros, e que transportes e telecomunicações seguiam paralisados. Familiares e amigas - suas e da filha – ligaram. Não ter o que dizer a deixava ainda mais angustiada.

O turno da tarde já chegava ao final e o desespero só aumentava. Sua sócia se disponibilizou a levá-la para casa e ficar por lá o tempo que fosse necessário. Eram amigas desde o tempo da faculdade. Se certificou que o celular da Carla estava com carga, pegou as bolsas e se dirigiram à garagem.

Quando se sentaram no carro, o telefone tocou mais uma vez:

? Mãe, sou eu, te amo e estou bem!

Rúbia Scheffer
Rúbia Scheffer
Florianópolis/SC

Rúbia Scheffer

Nascida em 1964 na cidade de Porto Alegre RS, mora em Florianópolis desde 1998. Viajante e escritora de relatos e crônicas de viagem. É autora dos livros "Atacama - expedição a um novo planeta" (2019) e "Patagônia - reviajando na pandemia" (2025). Já participou de oficinas de escrita com Marcelo Spalding, Zizo Asnis, Daniel Nunes e Juliana Reis. Criadora do perfil @expressotortuga – viajando, devagar e sempre, com a casa nas costas - onde costuma publicar as fotos de suas viagens. Além de seguir se aprofundando na escrita de relatos de viagem, Rúbia está se aventurando na escrita de contos e crônicas.