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Inverno de 1977

Inverno de 1977

por Guilherme de Oliveira Melo

Inverno de 1977

Um novo temporal estava a caminho. Não pergunte como um velho sabia disso, eu só sabia.

Levantei. Em meio a resmungos e lamentações, interrompendo a leitura de "A espera de um milagre". Fui até a janela e encarei a rua através do vidro. Observei a nuvem que se aproximava: disforme e negra. As roupas no varal começaram a tremular e batiam no vidro. 

Conseguia ver a vizinha, Samara. A velha estava fazendo o mesmo que eu — aguardando a chuva. Sempre que os nossos olhos se cruzavam, ela estava do mesmo jeito, em um pijama branco e sorrindo para mim. E toda vez sentia um calafrio. 

Sempre que chovia dessa forma, tinha dificuldade de dormir. Parte pelo ombro quebrado que, além de doer, também ficava inchado, e parte porque aquela noite vinha à tona. A noite que tudo mudou. 

Por mais que fizesse força para não lembrar, nunca conseguia. Antes que conseguisse perceber, estava novamente em junho de 1977, dentro do Chevette vermelho do meu amigo Nando, rumo ao litoral gaúcho...

 

***

 

Rita se virou para minha direção engrossando a voz o máximo que conseguia, o que não era muito. 

— Para de roer as unhas, que nojo!

É nojento, eu sei. Mas Nando, Rita, Tony, Cássia e eu, estávamos há quarenta minutos presos no trânsito, dentro do famoso túnel verde, que parecia qualquer coisa, menos uma rua. As árvores altas e imponentes se curvavam no topo, e suas folhas grandes se encontravam lá em cima, tampando o céu. Era como se a mãe natureza tivesse feito seu próprio túnel. 

Ligamos o rádio em busca de uma estação que estivesse tocando Raul Seixas, ou qualquer outra distração. Mas o que conseguimos foi um radialista:

"Na entrada do túnel verde um carro e uma moto colidiram", dizia ele. "Recebemos a informação que o motoqueiro foi arremessado a cinquenta metros". 

Por volta da meia-noite o trânsito foi liberado. Quando parecia que as coisas começariam a melhorar, fomos surpreendidos pelo destino. O pneu furado indicava que nossa noite não seria nada fácil. E adivinha? Era óbvio que estávamos sem estepe. 

— Pessoal — Tony disse. Interrompendo nossa discussão sobre o que fazer. — Tem alguém se aproximando.

Nesse momento, todos os outros carros já haviam partido. Era difícil ver por causa da escuridão. Nando pulou dentro do carro e acendeu os faróis. A luz revelou o homem cada vez mais perto, ele estava com um moletom azul, e o capuz escondia sua cabeça. 

— Precisando de uma ajuda por aqui? — disse ele, ainda mantendo distância. 

— Nosso pneu furou — Nando devolveu com um grito mais alto do que precisava. 

Enfim o homem chegou perto. 

— Por que não trocam? Posso conseguir um macaco? 

— Inteligente ele — Tony comentou com sarcasmo. — Por que não pensamos nisso?

— Desculpe o meu amigo, ele está nervoso. — Rita respondeu. — Estamos sem estepe. 

— Bah! — O homem respondeu coçando a cabeça. 

— Conseguimos alguma borracharia uma hora dessas? 

— Sem chance! O pessoal aqui dorme cedo. Antes do amanhecer ninguém vai ajudar vocês. Além de mim, é óbvio. 

— Então qual é a sua solução?

— O Hotel Imperial é bem pertinho daqui. Podem passar a noite lá. Amanhã posso rebocar vocês até a oficina de um amigo meu.

 

*** 

 

Empurramos o carro por mais ou menos duzentos metros à frente. Rita foi a única que permaneceu no interior do Chevette, cuidando do volante.

Ouvimos o barulho de um trovão. Outros dois vieram em seguida. Corremos até a escada de concreto, que levava a uma varanda sustentada por seis pilares. 

Um raio atravessou o ar e se chocou com uma árvore, fazendo com que parte dela desabasse sobre o telhado da varanda. Os pilares não aguentaram o peso e cederam. Cássia, a única que ainda não tinha entrado no hotel, precisou ser rápida antes que o concreto desabasse sobre sua cabeça.

Chegamos no hall de entrada, onde havia um enorme sofá que ficava de frente para uma lareira. No centro, pendurado ao telhado, existia um lustre todo de cristal. Fomos até a recepção, mas não encontramos ninguém. 

Já que ficamos sem resposta, caminhei até a outra extremidade para ver a situação da rua. Lá fora ouvíamos a chuva que ficava cada vez mais intensa, o som dos trovões eram frequentes.

— Estamos presos aqui — comentei. 

— Como assim? — Rita se aproximou de mim, colocando o braço na minha cintura e olhando para a chuva através do vidro. 

— A varanda que desabou, bloqueou a porta. 

Decidi subir até o segundo andar, onde havia um corredor bastante espaçoso.  Encarei a porta que tinha o número 217. Então segui até o próximo cômodo, e resolvi entrar. Era um escritório. Me aproximei da escrivaninha, onde notei uma máquina de escrever. "A pequena escola", li o título. No restante das folhas, descobri que alguém naquele hotel estava escrevendo uma peça de teatro. 

— O que acham de uma partida? — Nando tirou da mochila um baralho de cartas. Todos topamos. Já que não encontrávamos ninguém naquela porcaria de hotel, teríamos que ficar acordados até amanhecer. E para deixar o jogo mais interessante, ele também tinha uma garrafa de Martini. 

Rita resmungou alguma coisa que não compreendemos. Ela subiu as escadas e nunca mais voltou. Vinte minutos depois, Nando e eu subimos para procurá-la. 

A porta do quarto 217 estava entreaberta. Na parede à esquerda ficava um guarda-roupas marrom. Na outra extremidade, perto da janela, havia um piano de cauda.

Um clarão surgiu. A luz entrou no quarto. Imaginei que seria mais um raio caindo, mas algo estava diferente, alguma coisa fora do normal acontecia. A sensação de estar sendo observado era constante.

Quando Nando tentou abrir a porta do banheiro, ela bateu em algo e voltou. Na segunda tentativa, ele usou o antebraço para aumentar sua força. Sentimos algo pesado arrastando no chão, até que cedeu e a porta abriu. Aquilo que impedia nossa entrada no banheiro era o corpo da nossa amiga Rita.

A banheira estava com uma água verde e uma gosma escorrendo pelas laterais. De repente, dali se levantou uma mulher com um pijama branco. Bem, parecia com uma mulher? era muito velha, como se tivesse duzentos anos! A pele dela estava toda enrugada. 

Quando ela notou a nossa presença no banheiro, começou a se movimentar. Ela colocou um pé para fora da banheira, se apoiando sobre o tornozelo de Rita. Ela começou a caminhar em nossa direção. A água verde que se espalhava pelo piso molhava nossos sapatos. 

Viramos para sair o mais rápido possível, então percebemos que a porta para o corredor estava trancada. Como isso seria possível? Tomei distância e joguei meu corpo com toda força. O impacto quebrou meu ombro, mas abriu espaço o suficiente para que pudéssemos fugir dela. 

Peguei Nando pelos braços para ajudá-lo a escapar. Só que uma força sobrenatural o puxou de volta. O grito dele ecoou no hotel inteiro.

Ao chegar no hall, vi a porta da rua toda estilhaçada. Tony havia quebrado ela para que pudéssemos sair. Pulei o mais rápido que conseguia. Desci as escadas rolando, batendo violentamente com meu ombro quebrado no chão. O que restou dos meus amigos estava dentro do carro esperando. Arrisquei uma última olhada para a janela do hotel. 

Meus olhos cruzaram com a mulher morta da banheira, sentada em frente ao piano, como se estivesse tocando. E sorrindo para mim. 

Guilherme de Oliveira Melo
Guilherme de Oliveira Melo
Porto Alegre/RS

Guilherme de Oliveira Melo

Tenho 33 anos, escrevo desde 2014 e atuo profissionalmente com marketing desde 2019. Atualmente, sou fundador da minha própria agência de marketing, onde trabalho com estratégia, comunicação e produção de conteúdo.

Na literatura, publiquei os contos O Homem da Capa Preta, Beijo da Morte e Alium, pela Editora Cartola, além de Cleptomania, pela Editora Oito e Meio.

Sou apaixonado por terror, fantasia e distopia, e acredito que boas histórias têm o poder de provocar emoções, questionamentos e permanecer na memória do leitor. Hoje, sigo escrevendo novos projetos enquanto compartilho minha jornada e meu processo criativo com quem também sonha em transformar ideias em histórias.