por Luana Real

Encho as narinas com o perfume de Jasmim impregnado em minha jaqueta. Dela, não me sobrou nada. Então vou fungar a beirada das mangas até a essência se perder. Estúpidos. Não entendem saudade, angústia, pesar. Meus olhos enchem de lágrimas. Outros também vão chorar, se descabelar. Consigo imaginá-los, em lamentos, se abraçando. Nada mais do que uma farsa bem ensaiada. Como se ela precisasse deles. Ridículos. Foi comigo que ela sempre contou. E essa cadeira dura? Minha bunda está quadrada. Por que demoram tanto? Não respeitam minha dor... Só quero ir embora.
Inspiro profundamente. Não conheço o aroma da flor, apenas o da Jasmim. É adocicado, suave e meigo; me lembra damas da noite. Naquela festa de rock, primeiro senti o seu cheiro, depois, vi a mulher com ares de moleca dançando para si mesma, no meio das amigas, balançando um vestido branco em um mar de roupas escuras, de olhos fechados, encerrada no seu próprio mundo. Eu a chamei de dama da noite. Ela não gostou, de cara. Precisei explicar: é aquela florzinha branca que fica perfumosa à noite. Tinha muitas na casa de minha avó. Começou a tocar Last Nite do Strokes. Perguntei se ela curtia. Nós dois detestávamos. Mesmo assim, dançamos e, no desdém, encontramos um desinteresse em comum. Realmente, foi a última noite antes de Jasmim.
A bexiga aperta depois de tantas horas esperando. Saio pela porta. Não gosto desse lugar impessoal. Todos parecem ter pressa, indiferentes. Prefiro a salinha onde, sozinho, penso nela. Me ajudam a chegar ao banheiro masculino. Na volta, de longe, vejo amigos tentando compartilhar palavras de apoio. "Vai dar tudo certo", "Aguenta firme" e "Força!". Não posso dar atenção a eles agora, mas abro um sorriso e junto as mãos espalmadas em símbolo de gratidão.
Noto, também, a família de Jasmim, ali no canto, despejando lágrimas de crocodilo. Não têm coragem de me encarar. Hipócritas. Nunca gostaram de mim. Por essa corja, nem tínhamos morado juntos. E quem são eles para falar da nossa relação? Divorciados, não pouparam as filhas pequenas da brigalhada. Jasmim saiu de casa novinha, aos 18 anos. Ela insistia: sempre quis ser independente, livre. Com essa para cima de mim? Eu beijei sua face enrubescida e lambi cada lágrima derramada enquanto me abria o coração sobre as mágoas do passado, enterradas sob anos de terapia e camadas de convivência adulta. Eu sei que foi por causa da família. Então, ajudei a quebrar o vínculo com essas pessoas tóxicas.
Decido não lavar as mãos. Temo perder o aroma de dama da noite. Irônico... Jasmim nunca foi doce ou delicada. Dona de um humor cortante e de gênio imprevisível, não lhe faltavam respostas afiadas. Sem papas na língua, com ela era vento nos cabelos e terra nas canelas. Não se preocupava com muita coisa. Magnética. Todos ao seu redor eram como feitos de metal. Tinha grandes olhos sorridentes, corpo esguio e flexível. Dizia saber se cuidar, porém, desde que nos conhecemos, na festa do rock, assumi a posição de fiel escudeiro e guardião.
Deus do céu! Nem ao banheiro podia ir em paz. Era tudo que é macho rondando. As péssimas escolhas do passado tampouco davam trégua. Tipo o Guilherme. Foi bater o olho nele para saber que não prestava. Ex-namorado enfiado no seu círculo de amigos. Só ciscando. Eu via muito bem. Sufocadores. Essa patota inteira, aliás, não aceitava abrir mão da presença de Jasmim em seus programas de solteiro. Clara era a pior, cobra venenosa. Devia ter algum tipo de paixão por Jasmim. Única explicação para se meter tanto em nossa vida. Por eles, também, eu não teria me mudado. Egoístas. Fiz questão de fechar a cara, ser insuportável, deixar claro que eles não tinham espaço entre nós. Quando Jasmim me convencia a encontrá-los, ficavam todos de biquinho. Não me arrependo, pois, aos poucos, se afastaram. Menos a maldita da Clara.
Olho ao redor. Do que adianta paredes brancas se vão deixá-las encardidas? A porta também está escurecida. Uma mesa velha, manchada de café. As cadeiras desconfortáveis têm o assento duro. Tiro a jaqueta e a abraço, forte, me afundando no cheiro de Jasmim. Talvez eles não estivessem errados... a sua família cachorra, a turminha do barulho e a sapatona enrustida. Talvez a gente devesse ter esperado, mas era difícil pois eu queria somar. Dar a ela mais do que já tinha. Por isso, resolvi estudar para concurso público. Ao seu sinal, desfiz meu aluguel, pedi demissão do meu trabalho mal remunerado, fui de mala e cuia. O começo foi mágico. Ganhei espaço no guarda-roupa dela. Mudei algumas coisas de lugar. Estudava o dia inteiro e ansiava pela chegada da dama da noite. Comíamos bem. Certas vezes bebíamos. Nos amávamos quase todas as noites.
Por que você mudou, Jasmim?
Por que deixou de ter interesse por mim? Você negava. Pôs a culpa no cansaço, nos serões. Insistia naquele ritmo insano. "As contas não fecham, bancando duas pessoas sozinha" você me dizia. Não era bem assim. Eu estava levando mais tempo, do que o esperado, para passar, mas precisava jogar isso na minha cara? Me fazer sentir um lixo?
De perfeito, tudo passou a ser incômodo. Eu nunca tinha feito faxina ou cozinhado, de repente, isso virou um problema. Reclamava se eu jogasse video game, desse uma volta com amigos ou fosse à praia de tarde. A vida não é só estudar, eu tinha necessidades. E, pensando nelas, você parou de ser carinhosa, virou um ser robótico e se largou de mão. Engordou, tinha olhos fundos, não arrumava o cabelo ou usava maquiagem, se vestia de qualquer jeito, até seu perfume de dama da noite tinha ido embora. Eu já não precisava te proteger, havia se tornado um repelente de masculinidade. Quando eu te alertava sobre isso, me fazia de monstro. Já você podia me criticar à vontade. A única coisa que não permiti mudar foi a nossa cama. Até nos dias em que você não estava tão a fim, mesmo eu percebendo que seu coração não estava lá, continuamos fazendo amor quase todas as noites. Ou algo parecido com isso.
Eu sei quem começou toda essa desgraça. Ela sussurrava veneno nos seus ouvidos ingênuos. Tanto o fez, que conseguiu, com intrigas e acusações enviesadas, fazer a sua cabeça. Tentou, inclusive, te arrastar para a Delegacia da Mulher. Veja só! Eu podia até subir o tom, vez ou outra, e acertar algumas portas e paredes para extravasar a tensão das brigas, mas eu nunca te machucaria. Enfim, não teve jeito. Sua família e amigos, orquestrados por ela, se alinharam como uma parede entre nós. Víbora. Foi brabo, admito, aceitar sua ausência dissuadida, a negação imposta por terceiros. Impedido de me aproximar, cheguei a cogitar que estava tudo acabado.
Aperto a jaqueta, ainda mais forte, contra o peito. Quero fundir seu aroma com o meu corpo. Lágrimas rolam por meu rosto. Já não posso conter o choro. Essa é a pior parte de lembrar.
Um dia, o paredão abriu uma fenda e pude te alcançar. Eu precisava pegar algumas coisas, disse. Não queria encontrá-la na rua, expliquei. Pedi para conversar uma última vez, insisti. Você cedeu. Combinamos de eu passar no seu apartamento. Na verdade, não me importava qualquer pertence. Só precisava te ver. Esperava encontrá-la em cacos que eu colaria até remontar minha dama da noite. Porém, quando abriu a porta, você já estava refeita: bonita, leve, em perfeita forma. Reluzente, me recebeu, com migalhas de atenção, ao som de música alta ecoando pelo ambiente. Entrei sem muitas palavras. Sangue borbulhando. Perguntou-me "Tudo bem?" como se eu fosse um antigo conhecido. Mesquinha. Seguiu em frente, sem mim, depois de tudo que aguentei por nós? Estava sassaricando por aí? Se divertindo com o grupinho? Você se ofendeu. Reagiu como se eu estivesse errado em minha fúria.
Discutimos, aos berros. Agarrei os seus cabelos e funguei. Ali estava o perfume vivo, correndo o mundo, que agora impregna as mangas da minha jaqueta. Cujas beiradas aperto contra o meu rosto molhado. Last Nite começou a tocar na sua playlist. Você dança, na minha ausência, a música que odiávamos juntos? Com quem? Quantos? Tinha expandido? Talvez Clara? Ou, ficou no tradicional, com o idiota do Guilherme? Porque, sem mim, você só faz escolhas estúpidas, Jasmim. Levei um bofetão. Ardeu na minha cara, na minha alma, no meu saco escrotal. Leviana. Traidora. Abusada. Desgraçada! A mulher que eu amo me tratou como um merda. Que tipo de homem eu seria, se tivesse aceitado isso? Foi rápido, minutos. Aí sim, estava tudo acabado.
Droga, Jasmim! Esse não sou eu. Por que me fez agir assim? Todo mundo sabe que eu jamais te machucaria. Você sabe.
A porta range ao ser aberta pelos dois homens com quem passei horas conversando. Finalmente, retornam. Visto a jaqueta e me recomponho. Eles põem sobre a mesa, diante de mim, um documento oficial. O título é "Termo de Interrogatório". Um deles, mais simpático à minha pessoa, orienta a ler tudo e assinar no final. O faço, silenciosamente. Cada palavra, mais pungente do que a outra, me atravessa o peito.
— Eu não posso assinar esse documento. — Empurro os papeis para longe.
— Aí, não está redigido tudo que o senhor nos contou nas últimas oito horas? — pergunta o menos simpático.
— Sim. Na verdade, não. — Coço a cabeça. A mão trêmula.
— O senhor está dizendo que os fatos não estão corretos?
— Estão. Quero dizer. Tudo depende de como se vê.
— Se são suas palavras, por que não assinar?
— Não posso. — Cruzo os braços.
Os dois homens respiram fundo e me observam com olhos vermelhos de exaustão.
— Doutor, você não percebe? Aqui diz que a culpa foi minha.

Luana Real é carioca, advogada e escritora. Teve contos publicados em coletâneas e, no momento, tem o projeto para o lançamento do sua primeira antologia solo. Desde o ano passado, está se especializando em roteiro para o mercado audiovisual, com alguns de curta-metragem prontos para serem produzidos. Fascinada por arte, em todas as suas manifestações. Por meio do absurdo, do desconfortável, do sombrio e de símbolos, explora a natureza humana em seus trabalhos. Seus gêneros favoritos e aos quais se dedica são: terror, thriller, fantástico e realismo mágico. Com alguns respiros para autoficção.