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O matuto na eleição

O matuto na eleição

por Renato César Batista dos Santos

O matuto na eleição

O sol queimava sem piedade. Faltavam poucos minutos para o meio-dia, naquele vilarejo do interior do Nordeste. Eu procurava uma réstia de sombra para esconder o meu chapéu de palha, que parecia fumaçar de tão quente na minha cabeça. Encontrei a bodega de Zé Ninguém, pessoa muito conhecida no lugar, e achei trinta centímetros de sombra e um guaraná para tomar. Cumprimentei os presentes, inclusive ele, e fui logo refrescar a garganta com alguns goles do refrigerante.
Mais afastado, uns três palmos antes do balcão, estava Zé Matuto, com a sua conversa leve e faceira. Ele cobriu os olhos com a aba do boné e as pernas cruzadas numa calça de moletom, sentado num saco de milho. Parecia já ter almoçado pela disposição e eloquência que fazia os seus relatos; parecia até um político pedindo voto, impressão transmitida pelo fato de faltar uma semana para o pleito. 
Ao lado, em pé e quase ombro a ombro, tinha um senhor de meia-idade conhecido pelo nome de Moitinha, que já virava o terceiro copo de conhaque; ninguém falou, eu presenciei. Ele virou para Zé Matuto, que viajava em suas elucubrações e quase o acertando com a saliva que rompeu o obstáculo dos fios de seu bigode, falou com pausas alongadas e olhos fixos no seu interlocutor.
— Meu amigo Zé, me perdoe, eu sei que não é político, mas para que votar na eleição, se nada vai mudar? Nem é eleição de prefeito, me diga? — Houve uma pausa intrigante. Aquela pergunta entrava e saía pelos ouvidos, parecia subir ao raciocínio, em seguida, todos pareciam ruminar. As pessoas pareciam esperar algo daquela pergunta apropriada ao tempo; esperavam mais ainda pela resposta. 
O questionado deu uma revirada no saco de milho, procurando uma posição melhor para a réplica e, quase tocando no bigode do interlocutor, respondeu com os dedos raspando os grandes fios. O calor parou por um instante para ouvir aquela resposta e os presentes sustentaram a respiração naquele momento. Transformou-se num duelo invisível, precedido de algo que o intercalado não teria como imaginar.
— Eu não sou político, mas, por gosto, não vou deixar o amigo sem resposta. — Para responder a essa contradição, passou as vistas no interrogador e depois as girou como um radar, registrando e procurando algo que poderia vir dos curiosos. Após se certificar e avaliar o perigo daquele ambiente para falar de política, começou a discursar com a experiência trazida de duas décadas vividas em São Paulo.
Com o português agora adaptado à zona rural de uma pequena cidade do interior, respondeu sem pestanejar, acompanhado pelos olhares das testemunhas contumazes.
Ele respondeu que votava desde que tirou o título eleitoral, há 40 anos, e nunca mudou o voto; mudavam as eleições, ou seja, os candidatos escolhidos pelo sistema. Os eleitos tomavam a dianteira e os que perdiam o pleito continuavam sendo beneficiados pelo mesmo sistema, que nunca deixa ninguém na mão.
Quando o sistema mudava o candidato, também renovavam o argumento: a seca do Nordeste, a ditadura, a fome do povo, a falta de hospitais, insegurança pública, o analfabetismo, a escola pública, a violência, as drogas, o feminicídio, a vacina, a corrupção, as novas mentiras, a traição da pátria. 
Todos os temas, conforme o tempo e o interesse dos eleitores, serão manipulados, e o pior, ele é obrigado a votar nos ditos elegíveis. Não carece de inteligência para notar que a causa destes argumentos continua assolando o povo até hoje; as pessoas acreditam que melhorou ou piorou só um pouco.
Deveriam fazer exame de admissão e de inteligência, condições de saúde física ou mental, para exercerem qualquer cargo eletivo. Eles arruínam a economia do país, não existe ressarcimento ao erário e uma nova promessa surge de resgatar ou endireitar o próprio erro. E os proponentes são os mesmos, com a promessa de que, no próximo governo, irão fazer melhor. — E por que já não fez? — Uma voz lá atrás pergunta.
— Porque os matutos da roça e os espertos da cidade irão votar neles do mesmo jeito. — Uma voz estranha, responde.
— Qual seria o remédio eficaz, se somos obrigados a escolher os mesmos candidatos de sempre? — Atrevi-me a querer perguntar, mas uma jovem antecipou.
 O intercalado olhou para ela com a barba despenteada, tirou o cigarro do beiço e cuspiu bem longe, nos pés do pedinte fincado na calçada da esquina. Argumentou que era fácil e constatou que os dois candidatos são alinhados pelo sistema, difundidos nas pesquisas como amostrados na mídia. Eram sempre os mais prejudiciais ao país, trabalhados na mente do povo para se transformarem na opção mais acertada. 
O antídoto para combater esse primeiro mal seria não votar em nenhum dos dois primeiros nomes da lista, mesmo convencido pelo sistema. Até o final das propagandas eleitorais, tudo converge para a mesma coisa. E você vai lá, vota, e volta tudo para o mesmo ponto: insatisfação, reclamações, preços altos, juros altos, corrupção; tudo vai seguindo a trilha programada.
É um trabalho hercúleo para nada. As consequências seriam inevitáveis em todas as esferas de governo, desde o Palácio do Planalto à pequena prefeitura. É fácil perceber nas pequenas representações políticas que trabalham para o mesmo fim. 
Pequenas populações votam porque têm um emprego miserável como único sustento, recebem auxílios controlados pelos municípios, precisam de escola, hospitais, regulação, ambulâncias, festas e circos. Qualquer desvio eleitoral chega alguém batendo na porta para um questionamento ou conselho, que serve como ameaça ao próprio ou a um descendente. Na roça acontece menos por causa dos cachorros e das espingardas de caça.
Os sabidos de hoje são formados pelas redes sociais, tão frágeis e vulneráveis quanto o conhecimento que antigamente víamos na TV. Ninguém lê um livro para destravar a mente, não se interessa pela história, muito menos pela filosofia. 
Ainda não precisamos do velho Robespierre; precisamos de um novo James Watt para revolucionar a máquina humana em nosso país, investindo na indústria de transformação, oferecendo trabalho para a nação alcançar um rumo. Deixaríamos de fornecer a matéria-prima para o exterior, seja no agro, no combustível, nos minérios; passaríamos a beneficiá-la, trazendo riqueza e respeito para a economia.
A quem interessaria a liberdade e a riqueza de um país com essa potencialidade? A ninguém. Pessoas instruídas, independentes, conscientes das suas capacidades, em plenas condições de produzir com a sua inteligência e força, a quem interessaria? Eis a questão?
O povo precisa de um norte, tomando as próprias rédeas e deixando o caminho da mendicância. A próxima eleição é uma oportunidade de escolha; saia dos padrões oferecidos pelo sistema. Escolha os seus nomes, combata o câncer que persiste há décadas e busque o remédio para curá-lo. 
O matuto, emocionado, terminou dizendo que era só um pouco do que via com a sua ignorância; agora precisava voltar para a lida. Depois, apagou o cigarro e ofereceu um café; ninguém aceitou, pareciam meditar naquelas sementes plantadas no seio da terra do sol.
— As caravanas com os salvadores da pátria, os mesmos de sempre, estão aí. Prestem atenção nos nomes e nos amigos que figuram em silêncio; são normalmente os que comandam, fujam deles! Eliminem os representantes do sistema. Caso contrário, sofram e aguardem a volta de um novo Robespierre.
— O matuto encerrou a conversa como uma profecia, em seguida, saiu com o mesmo sorriso leve.
Quatro anos se passaram e o matuto não retornou para votar na eleição. Uma fatalidade na lida do campo o matou, após passar vários dias na fila da regulação. As suas ideias ainda se propagam em silêncio nos confins dessa grande nação.

Renato César Batista dos Santos
Renato César Batista dos Santos
Brasília/DF

Renato César Batista dos Santos

Nascido no estado da Bahia, assumiu carreira no serviço público em Brasília, onde permaneceu por quase trinta anos. É professor, palestrante, amante da leitura, escreve poesias, crônicas e contos já publicados.